Song Hae, o rosto de uma Coreia que cantou por gerações e transformou a televisão em encontro nacional

Song Hae, o rosto de uma Coreia que cantou por gerações e transformou a televisão em encontro nacional

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O apresentador que virou símbolo da memória popular sul-coreana

Para muitos sul-coreanos, o nome Song Hae representa mais do que um apresentador de televisão. Ele se tornou uma figura associada à memória coletiva do país, especialmente por sua longa trajetória à frente do programa Jeon-guk Norae Jarang ("Concurso Nacional de Música"), atração que percorreu cidades e vilarejos da Coreia do Sul durante décadas.

Nascido em 27 de abril de 1927, em Jae Ryeong, na antiga província de Hwanghae, território que hoje pertence à Coreia do Norte, Song Hae nasceu com o nome Song Bok-hui. Sua vida atravessou alguns dos períodos mais marcantes da história coreana: a divisão da península, a Guerra da Coreia, a reconstrução nacional e a transformação da televisão em um dos principais espaços de cultura popular.

Antes de se tornar apresentador, ele foi cantor, humorista e artista de palco. Sua carreira mostra uma característica importante do entretenimento sul-coreano: a proximidade entre artistas e público. Diferentemente de uma celebridade distante, Song Hae construiu sua imagem conversando com pessoas comuns, ouvindo histórias de moradores locais e dando espaço para anônimos mostrarem seus talentos.

Ele morreu em 8 de junho de 2022, aos 95 anos, deixando uma trajetória reconhecida como parte da história cultural da Coreia do Sul. Pouco antes, em maio daquele ano, entrou para o Guinness World Records como o apresentador mais velho de um programa de competição musical de televisão.

Uma história marcada pela guerra, separação e recomeço

A biografia de Song Hae está diretamente ligada aos acontecimentos que moldaram a Coreia moderna. Após o início da Guerra da Coreia, em 1950, ele deixou sua terra natal para fugir do conflito. Durante a retirada de janeiro de 1951, conseguiu embarcar em um navio de evacuação rumo ao sul da península.

A viagem representou uma ruptura definitiva. Ao deixar sua casa, ouviu da mãe uma frase que seria lembrada por toda a vida: “Filho, desta vez tome cuidado”. Foi o último diálogo entre os dois. A experiência de perder o contato com sua terra natal influenciou sua identidade artística e apareceu posteriormente em músicas interpretadas por ele.

Foi durante essa fuga pelo mar que ele adotou o nome artístico Song Hae. Segundo relatos sobre sua trajetória, o nome fazia referência ao mar diante dele e simbolizava o desejo de abraçar um mundo amplo depois de uma experiência marcada pela perda.

Ao chegar a Busan, ingressou no Exército sul-coreano e trabalhou como operador de comunicação durante a guerra. Uma das suas funções foi transmitir mensagens usando código Morse no período do armistício firmado em 27 de julho de 1953.

Após deixar o serviço militar, iniciou oficialmente a carreira artística em 1955 como cantor da companhia teatral Chang-gong Akgeukdan. Aos poucos, passou dos palcos para a televisão, participando de programas de comédia e variedades que ajudaram a popularizar seu nome entre diferentes gerações.

De cantor e humorista a anfitrião de um país inteiro

A partir das décadas de 1970 e 1980, Song Hae tornou-se uma presença constante no entretenimento sul-coreano. Ele dividiu espaço com grandes nomes da comédia nacional e participou de programas que marcaram a televisão da época.

Sua trajetória também acompanhou mudanças na indústria de mídia do país. Após a reorganização das emissoras sul-coreanas no início dos anos 1980, ele continuou sua carreira na KBS, uma das principais redes públicas de televisão da Coreia do Sul.

Além da televisão, manteve sua ligação com a música. Participou de programas dedicados à canção tradicional coreana e realizou apresentações mesmo depois dos 80 anos. Em 2018, lançou o álbum “Ttanttara”, reunindo músicas que refletiam temas como envelhecimento, lembranças e a passagem do tempo.

Mas foi no comando de Jeon-guk Norae Jarang que sua imagem se consolidou definitivamente. O programa, criado para levar música e entretenimento a diferentes regiões do país, tornou-se uma espécie de retrato social da Coreia. Os participantes não eram apenas cantores amadores: eram agricultores, comerciantes, estudantes, idosos e moradores locais que compartilhavam histórias pessoais diante das câmeras.

O estilo de Song Hae era baseado na conversa espontânea e no humor simples. Ele perguntava sobre a vida dos participantes, brincava com o público e criava uma atmosfera familiar. Para muitos coreanos, assistir ao programa aos domingos era uma tradição ligada à família e à identidade regional.

A ligação com o Brasil: cultura popular e o valor das histórias comuns

A trajetória de Song Hae oferece um ponto de conexão interessante com o Brasil, especialmente pela forma como ele transformou a televisão em um espaço para pessoas comuns. No país, programas de auditório e competições musicais também fazem parte da memória popular, reunindo talentos desconhecidos e aproximando artistas do público.

Embora não haja uma relação direta documentada entre o programa sul-coreano e atrações brasileiras específicas, existe uma semelhança cultural no papel desses formatos: revelar histórias individuais e criar momentos de identificação coletiva. No Brasil, onde a música regional e as manifestações populares têm forte presença, a ideia de valorizar participantes anônimos também faz parte da tradição televisiva.

Para o público brasileiro interessado na Coreia do Sul, a história de Song Hae ajuda a compreender uma dimensão menos conhecida da chamada onda coreana, ou Hallyu. O fenômeno normalmente é associado ao K-pop, aos dramas e ao cinema, mas a cultura sul-coreana também é construída por figuras ligadas à televisão tradicional, à música popular e às histórias locais.

Empresas brasileiras e o mercado de entretenimento que acompanham o crescimento do interesse pela Coreia podem observar que o sucesso internacional da cultura coreana não depende apenas de grandes produções. Existe também uma base cultural formada por programas, artistas veteranos e formatos que fortalecem a conexão emocional com o público.

Uma ponte simbólica entre Norte e Sul da Coreia

Um dos momentos mais marcantes da vida de Song Hae aconteceu em 2003, quando participou do especial “Pyongyang Norae Jarang”, realizado em Pyongyang, na Coreia do Norte. Foi sua primeira visita ao território natal desde que deixou o norte durante a guerra, mais de cinco décadas antes.

A apresentação teve um significado pessoal profundo. Filho de uma região que ficou separada após a divisão da península, Song Hae representava uma geração de coreanos que carregava memórias de famílias separadas e cidades que ficaram inacessíveis durante décadas.

Durante o evento, ele se emocionou ao ouvir a música “Dasi Mannapsida” (“Vamos nos encontrar novamente”), cantada como encerramento. Ao mencionar sua cidade natal, recebeu a informação de que muitas pessoas daquela época já não estavam mais vivas, reforçando a dimensão da passagem do tempo e das perdas provocadas pela divisão coreana.

Ele declarou diversas vezes o desejo de realizar uma edição de Jeon-guk Norae Jarang em sua terra natal, mas esse projeto nunca foi realizado.

O legado de um apresentador que fez da televisão um lugar de encontro

A despedida de Song Hae em 2022 reuniu representantes da política, da cultura e do entretenimento sul-coreano. O governo concedeu a ele a Ordem da Cultura Geumgwan, uma das maiores honrarias culturais do país.

Seu funeral destacou não apenas sua carreira profissional, mas também a relação construída com milhões de espectadores. Colegas lembraram que ele não apenas apresentava um programa: ele criava espaços de convivência em mercados, praças e comunidades espalhadas pela Coreia.

Durante mais de três décadas à frente de Jeon-guk Norae Jarang, Song Hae acompanhou mudanças profundas na sociedade sul-coreana. Viu o país sair da pobreza do pós-guerra, tornar-se uma potência tecnológica e ampliar sua influência cultural global.

Sua importância está justamente na combinação entre história pessoal e memória coletiva. Ele foi um refugiado da divisão coreana, um artista de várias gerações e o rosto de um programa que deu voz a pessoas que normalmente não aparecem nos grandes palcos.

Para brasileiros que acompanham a Coreia contemporânea, Song Hae representa uma parte essencial de entender o país além das tendências internacionais. Antes dos grandes fenômenos globais do K-pop e das plataformas digitais, existiam histórias locais, músicas tradicionais e figuras populares que ajudaram a construir a identidade cultural sul-coreana.

Source: Original Korean article - Trendy News Korea

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