Além do K-pop: como Song Hae transformou um concurso de calouros em memória da Coreia

Além do K-pop: como Song Hae transformou um concurso de calouros em memória da Coreia

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Uma Coreia que cabe no palco de um programa de calouros

Para conhecer a Coreia do Sul, nem sempre o melhor ponto de partida é um videoclipe de K-pop ou uma série de grande orçamento. Às vezes, é um palco ao ar livre, um participante que ainda não sabe o que fazer diante do microfone e um apresentador capaz de transformar nervosismo em conversa. Durante décadas, esse apresentador foi Song Hae, rosto de um concurso musical que deu espaço a pessoas comuns e se tornou parte da memória da televisão sul-coreana.

Morto em 8 de junho de 2022, aos 95 anos, Song Hae havia recebido poucas semanas antes o reconhecimento do Guinness World Records como o mais velho apresentador de um programa de competição musical na televisão. O recorde resume a longevidade, mas não explica sozinho sua importância. Sua trajetória atravessou a Guerra da Coreia, a separação familiar, mudanças impostas ao sistema de radiodifusão e a construção de uma relação duradoura entre entretenimento popular e vida cotidiana.

Para o público brasileiro, o caminho mais direto para compreender esse lugar passa pelos programas de auditório e pelas competições de calouros. Não porque Song Hae fosse uma versão coreana de algum comunicador do Brasil, mas porque trabalhava com uma matéria-prima familiar por aqui: o encontro entre música, improviso, humor e gente que, por alguns minutos, deixa de ser espectadora para ocupar o centro da cena.

Revisitar sua história também permite olhar além da imagem internacional de uma Coreia associada à juventude, à tecnologia e à produção cultural de alto desempenho. Song Hae representava outra camada desse país: a dos artistas formados em companhias de variedades, das canções carregadas de saudade e de uma televisão capaz de circular por cidades e reunir gerações.

O nome artístico nasceu de uma fuga

Song Hae nasceu em 27 de abril de 1927, com o nome de Song Bok-hui, em Jaeryong, na província de Hwanghae, território que hoje pertence à Coreia do Norte. Sua aproximação com o palco veio antes da guerra. Em 1949, ingressou no curso de canto de uma escola de artes em Haeju e começou a se apresentar. A música parecia oferecer um caminho profissional, mas a história da península logo alteraria esse percurso.

Quando a Guerra da Coreia começou, em junho de 1950, ele se escondeu nas montanhas para evitar o recrutamento pelo Exército norte-coreano. Na terceira fuga, não conseguiu voltar para casa. Embarcou em um navio americano de evacuação que seguia para o sul. A recomendação da mãe para que tomasse cuidado acabou sendo a última fala dela que guardaria de um encontro entre os dois.

O mar observado durante a viagem inspirou o nome artístico Song Hae. A escolha ficou ligada tanto à experiência da travessia quanto à vontade de abraçar um mundo mais amplo. Não era apenas uma mudança de assinatura profissional: o nome passou a carregar a memória de uma ruptura que ele não havia escolhido e que nunca conseguiria reparar inteiramente.

Depois de chegar a Busan, no sul da península, tornou-se militar de comunicações das Forças Armadas sul-coreanas. Em 27 de julho de 1953, quando foi firmado o armistício da Guerra da Coreia, sua tarefa foi transmitir em código Morse a mensagem sobre o acordo. O armistício interrompeu os combates, mas não constituiu um tratado de paz. Para famílias separadas como a dele, a suspensão da guerra não significou a possibilidade de voltar para casa.

Essa experiência ajuda a compreender o peso da saudade em sua obra. Para leitores brasileiros, pode lembrar o repertório de migração e distância tão presente na música popular, mas há uma diferença decisiva: no caso coreano, a fronteira política e militar impediu reencontros e transformou a ausência em uma condição que atravessou décadas.

Do canto ao humor, uma carreira construída em vários meios

Após deixar o serviço militar, Song Hae encontrou trabalho na companhia de espetáculos Changgong, onde estreou profissionalmente como cantor em 1955. O ambiente das trupes de variedades exigia versatilidade e contato direto com a plateia. Antes de ser identificado com um único programa, ele circulou por diferentes formas de entretenimento, construindo uma carreira que não separava rigidamente música, atuação e comédia.

Em 1963, fez uma pequena participação no cinema. A partir do fim daquela década, os programas humorísticos e a apresentação de atrações passaram a ocupar o centro de sua atividade. Nos anos 1970 e 1980, dividiu espaços de trabalho com nomes importantes da comédia sul-coreana, entre eles Gu Bong-seo, Bae Sam-ryong, Lee Ju-il e Nam Seong-nam.

A trajetória também foi afetada por decisões políticas. A TBC, emissora à qual esteve ligado, foi fechada compulsoriamente em 1980, durante uma reorganização autoritária dos meios de comunicação. Seu trabalho migrou para a KBS 2TV. O episódio é um lembrete de que a história da televisão sul-coreana não se resume ao crescimento de uma indústria bem-sucedida: inclui intervenções estatais que mudaram empresas e carreiras.

No rádio, Song Hae apresentou um programa matinal de informações de trânsito iniciado em 1975. A atração passou da TBC para a KBS Radio Seoul e continuou com ele até 1989. O formato parece distante de um concurso de canto, mas dependia de uma habilidade semelhante: estabelecer familiaridade com quem acompanha a programação durante tarefas comuns, sem exigir atenção exclusiva a todo momento.

Mesmo depois de se consolidar como apresentador, ele não abandonou a música. Cantou repertório popular tradicional no programa Gayo Stage, realizou shows solo após os 80 anos e lançou novas gravações. Em 2015, levou para uma canção a história da separação da mãe. Em 2018, apresentou um álbum de estúdio. Sua identidade artística, portanto, continuou ligada ao canto, e não apenas ao papel de conduzir as apresentações dos outros.

Uma perda familiar antes do programa que o consagrou

A chegada ao Jeonguk Norae Jarang, título que pode ser entendido como Concurso Nacional de Canto, ocorreu depois de uma tragédia. Em março de 1987, seu único filho homem morreu aos 23 anos em um atropelamento no qual o motorista fugiu. Song Hae enfrentou um período de sofrimento e culpa. Foi nesse contexto que o diretor de televisão Ahn In-gi o convidou a viajar pelo país com a equipe do programa.

Não cabe reduzir o luto a uma história simples de recuperação por meio do trabalho. O que sua biografia registra é a aceitação, depois de hesitação, de uma proposta que o colocaria novamente diante de pessoas e lugares diferentes. Sua primeira apresentação no concurso ocorreu em 8 de maio de 1988. A partir dali, aquela atração se tornaria seu principal ponto de contato com o público.

A permanência não foi completamente contínua. Em uma reformulação na primavera de 1994, ele foi substituído pelo apresentador Kim Seon-dong. Protestos de espectadores e queda de audiência estiveram entre os desdobramentos da mudança. Cerca de seis meses depois, em outubro, Song Hae retornou. O episódio mostrou que a ligação do público com a atração envolvia não apenas o formato, mas também a pessoa que mediava o encontro no palco.

O concurso oferecia uma lógica diferente da busca exclusiva por novos astros profissionais. A apresentação de um participante podia valer pela voz, mas também pela conversa, pelo humor ou pela identificação com quem estava assistindo. Nos tributos feitos após sua morte, colegas destacaram justamente essa capacidade de transformar participantes em estrelas e devolver a pessoas mais velhas a disposição de se apresentar como jovens.

Há uma dimensão cultural importante nesse reconhecimento. O apresentador experiente não precisava disputar toda a atenção com o convidado. Seu trabalho era tornar possível a presença do outro: conduzir a conversa, acomodar o inesperado e sustentar o ritmo de uma gravação pública. O prestígio acumulado por Song Hae parece inseparável dessa combinação de autoridade de palco e proximidade.

Da circulação internacional ao reencontro incompleto em Pyongyang

As gravações públicas do programa ultrapassaram as fronteiras sul-coreanas. A atração chegou a cidades como Los Angeles, Tóquio, Pequim, Nova York e Londres. Também realizou uma edição no Paraguai, evidência de que a circulação internacional do entretenimento coreano não se limitava aos grandes centros mais associados à atual expansão do K-pop e dos dramas televisivos.

Essas viagens não autorizam, por si só, conclusões sobre audiência, receitas ou tamanho de mercado em cada destino. Mostram, porém, a mobilidade de um formato apoiado no encontro presencial e na participação. Antes de reduzir a presença cultural da Coreia no exterior aos produtos mais visíveis nas plataformas digitais, vale observar também esses circuitos de televisão e apresentações públicas.

A passagem por Pyongyang, em 2003, teve um significado distinto. Nascido no norte e refugiado no sul durante a guerra, Song Hae enfrentou dificuldades para obter autorização de permanência porque as autoridades norte-coreanas questionaram seu histórico. Quando conseguiu participar, dividiu a apresentação do especial com Jon Song-hui, da televisão estatal norte-coreana.

No encerramento, chorou durante o coro de uma canção cujo título pode ser entendido como Vamos Nos Encontrar Novamente. Depois, em um jantar, falou sobre sua terra natal. Segundo recordou, um interlocutor norte-coreano lhe disse que muito tempo havia passado e que seus familiares já não estavam lá. Ele interpretou a resposta como a confirmação de que não reencontraria a mãe.

Song Hae manifestou diversas vezes o desejo de levar o Concurso Nacional de Canto a Jaeryong. Não conseguiu. A experiência expõe o limite da aproximação cultural: subir a um palco em Pyongyang não significava recuperar a liberdade de circular pela própria história. A apresentação permitiu uma travessia excepcional, mas não desfez a separação familiar provocada pela guerra.

O que essa história oferece ao público brasileiro

No Brasil, a comparação mais útil é com a tradição dos comunicadores de auditório, como Silvio Santos e Chacrinha. As diferenças entre suas trajetórias e a de Song Hae são grandes, assim como os sistemas de televisão em que trabalharam. O ponto de contato está na capacidade de fazer do participante comum uma atração e de construir, ao longo de muitos anos, uma familiaridade que ultrapassa um quadro ou uma temporada.

Esse paralelo ajuda o leitor brasileiro a reconhecer que entretenimento popular não é apenas uma sucessão de músicas ou brincadeiras. A maneira de receber um calouro, lidar com um erro e conversar com alguém sem experiência de televisão pode definir o vínculo de um programa com sua audiência. Song Hae permite enxergar essa tradição na Coreia sem tratá-la como uma curiosidade exótica.

Para os brasileiros que se aproximaram do país pelo K-pop e pelas séries, sua trajetória amplia o repertório. Há uma história cultural anterior e paralela à dos grupos de ídolos, marcada por canções antigas, humor televisivo, rádio e memórias da guerra. Conhecer essa camada ajuda a evitar que uma sociedade inteira seja confundida com os produtos que alcançam maior projeção internacional.

Não há, nos dados disponíveis sobre esta história, evidência de apresentações de Song Hae no Brasil, negócios com empresas brasileiras ou impacto mensurável no mercado nacional. A edição no Paraguai não deve ser apresentada como uma passagem brasileira. A conexão mais sólida é cultural: os dois países oferecem experiências de televisão popular nas quais o carisma do mediador e o reconhecimento de pessoas comuns ajudam a sustentar a relação com o público.

Para quem trabalha com programação e cobertura cultural no Brasil, o caso também sugere uma pergunta relevante: quanto da diversidade coreana chega ao espectador quando a atenção se concentra apenas nos lançamentos de maior circulação global? Isso não demonstra a existência de demanda comercial por programas antigos. Indica, antes, uma oportunidade editorial de apresentar a Coreia com mais gerações, linguagens e experiências sociais.

Longevidade, pandemia e os limites de uma presença constante

Song Hae continuou participando de gravações externas depois dos 90 anos. Em 2020, a expansão da covid-19 interrompeu as gravações presenciais, e o programa prosseguiu com especiais em estúdio. A mudança atingia algo central para a atração: a reunião de participantes e plateia no mesmo espaço, com as interações imprevistas que dão personalidade a uma apresentação pública.

A passagem para o estúdio pode ser lida como uma adaptação prática, mas também revela o que fazia aquele formato funcionar. O concurso não dependia somente de executar canções diante de câmeras. Dependia do lugar visitado, da reação coletiva e da conversa. Ao alterar essas condições, a pandemia tornou mais visível o valor do encontro que a televisão levava às casas.

Em 23 de maio de 2022, o Guinness reconheceu Song Hae, então com 95 anos, como o apresentador de competição musical televisiva mais velho do mundo. No mesmo mês, ele comunicou à produção que o estado de saúde tornava difícil continuar. Sua última aparição na televisão ocorreu em 15 de maio. Morreu em 8 de junho, em casa, no bairro de Dogok, no distrito de Gangnam, em Seul.

O recorde pode estimular uma celebração abstrata da produtividade na velhice, mas sua história pede mais cuidado. O que merece atenção é a possibilidade de um artista idoso permanecer relevante e criar vínculos com públicos de diferentes idades. Isso não elimina fragilidades nem transforma a continuidade do trabalho em obrigação. O próprio apresentador reconheceu o momento em que a saúde limitava sua permanência.

Um legado feito de pessoas, lugares e canções

A despedida reuniu colegas de várias gerações. Entre os artistas que participaram do cortejo estavam Yoo Jae-suk e Kang Ho-dong, nomes de grande projeção no entretenimento sul-coreano. Nos discursos, a imagem recorrente não foi apenas a do profissional recordista, mas a de alguém que fazia praças, mercados e espaços de convivência parecerem extensões de um palco compartilhado.

Sua ligação com Dalseong, na região de Daegu, também permaneceu na despedida. Era a terra natal de sua mulher, Seok Ok-i, com quem se casou depois de conhecê-la durante o serviço militar. Ela morreu em janeiro de 2018. Embora tivesse direito a sepultamento em um cemitério nacional, Song Hae foi enterrado ao lado dela, em Dalseong, conforme sua vontade.

O reconhecimento oficial acompanhou a longa carreira. Ele recebeu diferentes graus da Ordem do Mérito Cultural e, no dia de sua morte, foi homenageado postumamente com o grau Geumgwan, o mais elevado dessa condecoração. Em 2023, seu nome integrou a seleção de 50 personalidades que marcaram a KBS. Prêmios de televisão e homenagens de colegas completam esse registro institucional.

Mas o aspecto mais revelador de seu legado está além das medalhas. Song Hae ligou uma experiência pessoal de deslocamento a um trabalho dedicado a circular, ouvir e apresentar outras pessoas. A guerra lhe tirou o acesso à família e à cidade natal; a televisão lhe ofereceu um mapa de encontros, sem substituir aquilo que havia perdido.

Para acompanhar o futuro da cultura coreana, vale observar não só quais artistas conquistarão novos mercados, mas também quais espaços continuarão disponíveis para participantes comuns e públicos mais velhos. A história de Song Hae não fornece uma previsão comercial. Oferece um critério para olhar a televisão: além da capacidade de fabricar celebridades, importa sua disposição de reconhecer quem normalmente permanece na plateia.

Source: Original Korean article - Trendy News Korea

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