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Um jornal para levar a política além do palácio
Muito antes de a Coreia do Sul se tornar conhecida no Brasil por seus celulares, carros, séries e grupos de K-pop, a península coreana enfrentava uma questão decisiva: quem poderia participar das decisões sobre seu futuro? Na passagem do século 19 para o 20, Seo Jae-pil procurou ampliar esse debate com duas ferramentas que continuam centrais à vida democrática: um jornal e uma associação dedicada à discussão pública.
Nascido em 1864 e morto em 1951, Seo atravessou diferentes países, profissões e projetos políticos. Foi funcionário da monarquia coreana, participou de uma tentativa de golpe reformista, viveu no exílio e se tornou médico nos Estados Unidos, onde adotou o nome Philip Jaisohn. Sua contribuição mais duradoura, porém, está ligada à iniciativa de fazer o conhecimento circular fora dos ambientes que tradicionalmente concentravam o poder.
A criação do jornal Dongnip Sinmun, em abril de 1896, e da Associação da Independência, em julho do mesmo ano, marcou essa mudança. Em vez de buscar reformas apenas por meio de cargos, treinamento militar ou articulações no governo, Seo passou a investir também na formação de leitores e participantes do debate político. Sua trajetória ajuda a entender um aspecto da história coreana menos visível no consumo brasileiro de entretenimento: a longa e conflituosa construção de espaços de participação.
Uma infância dentro das redes da elite
Seo nasceu em Dongbok, numa área que hoje corresponde ao município de Boseong, no sudoeste da península. A origem importa menos como detalhe de endereço do que como indicação do mundo social em que cresceu. Sua família materna possuía grandes propriedades e vínculos com a administração. O lado paterno também tinha ascendência prestigiosa, embora tivesse enfrentado dificuldades financeiras. Não se tratava, portanto, de alguém inteiramente alheio aos círculos de influência.
Depois de passar parte da infância na região da atual Nonsan, ele foi adotado, aos sete anos, por um parente do pai que não tinha filhos homens. A adoção entre parentes podia cumprir funções de continuidade familiar e de linhagem naquele contexto. Não deve ser entendida automaticamente a partir das expectativas brasileiras contemporâneas sobre adoção. No caso de Seo, a mudança também o aproximou das oportunidades de educação e relacionamento disponíveis na capital.
Em 1872, foi enviado para estudar na casa do alto funcionário Kim Seong-geun, em Hanseong, nome então usado para a cidade hoje conhecida como Seul. Ali, aprendeu textos clássicos chineses e os fundamentos de uma formação confucionista. O confucionismo, tradição intelectual e ética de grande influência no Leste Asiático, fornecia referências para a conduta pessoal, as relações familiares e o exercício do governo. Dominar seus clássicos era uma credencial de acesso à burocracia.
Dos exames imperiais ao contato com novas ideias
A educação de Seo combinava leitura e intensa memorização. Seu objetivo era preparar-se para o gwageo, o sistema de exames de seleção de funcionários da monarquia. Para um leitor brasileiro, a comparação mais próxima seria a de um concurso público, mas com uma ressalva fundamental: aqueles exames estavam inseridos numa sociedade hierárquica, muito diferente do ideal contemporâneo de igualdade de acesso ao serviço público. Formação, origem e redes de relacionamento tinham grande peso.
Na casa em que estudava, Seo conheceu figuras que influenciariam seu caminho, entre elas Kim Ok-gyun e Seo Gwang-beom. Por intermédio desses contatos, aproximou-se de ambientes interessados em novos conhecimentos e em reformas. Matemática, mapas, globos terrestres, telescópios e outros instrumentos passaram a dividir espaço com os clássicos. O contraste não era simplesmente entre uma tradição sem valor e uma modernidade superior, mas entre diferentes maneiras de compreender o mundo e organizar o Estado.
Esses círculos estavam ligados às correntes de abertura e modernização conhecidas como gaehwa. A expressão pode ser entendida, nesse contexto, como um esforço para reformar instituições e incorporar conhecimentos estrangeiros. Não designava, contudo, um programa único nem significava necessariamente democracia no sentido atual. Havia disputas sobre a velocidade das mudanças, seus beneficiários e as potências estrangeiras que poderiam servir de referência ou apoio.
Depois de resultados desiguais nas primeiras avaliações, Seo avançou na carreira e foi aprovado num importante exame civil em 1882, aos 18 anos. A entrada no funcionalismo não trouxe estabilidade imediata: ele passou por nomeações temporárias e diferentes atribuições. Sua experiência como jovem burocrata ocorria num Estado pressionado a se transformar, mas atravessado por rivalidades internas e pela crescente interferência de forças externas.
O Japão como escola e o fracasso da reforma pelas armas
O interesse de Seo por conhecimentos estrangeiros também foi alimentado por livros de história, geografia, física e química que circulavam entre reformistas. Templos budistas integravam essa rede de encontros e intercâmbio. Em Bongwonsa, na capital, o monge Yi Dong-in, que conhecia o japonês e mantinha contatos no Japão, ajudava a trazer publicações e objetos associados às transformações técnicas da época. Aprender sobre o exterior era, para esses grupos, parte de uma disputa sobre os rumos do país.
Em 1883, por incentivo de Kim Ok-gyun, Seo viajou ao Japão à frente de 14 jovens de origem comum. Estudou japonês na instituição Keio, teve contato com o inglês e observou instalações militares e o sistema policial. No início do ano seguinte, recebeu treinamento militar moderno na escola de Toyama. A viagem ampliou seu aprendizado para além dos livros: organização administrativa, disciplina e funcionamento das instituições passaram a fazer parte da experiência.
De volta à Coreia, participou da tentativa de estabelecer uma estrutura de formação militar. O projeto recebeu autorização do rei Gojong, mas encontrou resistência política e acabou interrompido. A corte era um espaço de disputa, inclusive sobre quem controlaria as tropas e qual seria o papel da China governada pela dinastia Qing. A modernização militar não constituía apenas uma escolha técnica; redistribuía autoridade e ameaçava posições estabelecidas.
Em 1884, Seo aderiu ao golpe de Gapsin, uma tentativa de tomada do poder por reformistas que durou apenas três dias. O fracasso levou à fuga para o Japão e, depois, ao exílio nos Estados Unidos. Esse episódio impede que sua biografia seja apresentada como uma marcha coerente e sem contradições rumo à democracia. Antes de defender o debate público por meio de jornais e associações, ele havia participado de uma iniciativa de mudança política pela ruptura.
O exílio e a mudança de instrumento político
Nos Estados Unidos, Seo reconstruiu a vida com o nome Philip Jaisohn. Tornou-se cidadão americano em 10 de junho de 1890, sendo reconhecido como o primeiro coreano a obter essa cidadania. Também se formou médico e desenvolveu atividades intelectuais. Sua trajetória passou, assim, a reunir experiências que raramente cabem numa identidade nacional simples: era um exilado coreano, um cidadão americano e alguém que continuava interessado no destino de sua terra natal.
A oportunidade de retorno surgiu em 1895, quando o gabinete de Kim Hong-jip o convidou para atuar como conselheiro do Jungchuwon, órgão ligado ao governo. No ano seguinte, em 7 de abril, ele lançou o Dongnip Sinmun, cujo título pode ser traduzido como Jornal da Independência. A publicação é reconhecida como o primeiro jornal privado coreano. Sua importância não estava apenas no pioneirismo editorial, mas na escolha da imprensa como instrumento de intervenção política.
É necessário acertar o calendário para compreender a iniciativa. O jornal surgiu ainda sob a dinastia Joseon, antes da proclamação do Império Coreano, em 1897. Também antecedeu a anexação da Coreia pelo Japão, ocorrida em 1910. Por isso, a palavra independência, no ambiente de 1896, não deve ser lida exclusivamente como uma referência à luta posterior contra a colonização japonesa. Ela se relacionava à defesa da autonomia do país diante das pressões externas daquele momento.
A mudança de método é o ponto decisivo. Um homem que havia buscado transformar o Estado por dentro da burocracia e das estruturas militares passou a disputar ideias diante de um público leitor. Não abandonava a política; alterava os meios de exercê-la. O jornal permitia tornar argumentos recorrentes, dar visibilidade a questões coletivas e criar um espaço de discussão que não dependesse exclusivamente do acesso pessoal aos governantes.
Uma associação para aprender a participar
Em julho de 1896, Seo participou da criação da Associação da Independência, conhecida em coreano como Dongnip Hyeophoe. A proximidade entre o nascimento do jornal e o da organização revela iniciativas complementares: publicar ideias e reunir pessoas para discuti-las. A associação promoveu debates e palestras, além de recorrer a petições ao soberano e a manifestações públicas. Diferentes formas de atuação coexistiam, combinando práticas antigas de comunicação política com novos espaços de mobilização.
As petições ao rei, chamadas sangso, faziam parte do repertório institucional da monarquia. Em termos acessíveis ao público brasileiro, eram exposições de argumentos e pedidos dirigidas ao governante, embora inseridas numa relação de autoridade muito distinta daquela prevista por uma democracia constitucional. Ao lado desse mecanismo, debates e reuniões abriam oportunidades para que questões políticas fossem tratadas coletivamente, em vez de permanecerem limitadas aos canais da corte.
Entre os temas divulgados por Seo estavam a democracia e o direito de participação política. O alcance histórico dessa atuação não autoriza afirmar que a associação tenha implantado uma democracia, garantido sufrágio universal ou representado todos os grupos sociais em condições iguais. Sua contribuição foi colocar esses assuntos em circulação e oferecer experiências de discussão pública. Conhecer uma ideia, aprender a argumentar e reivindicar voz são etapas importantes, mas não equivalem à conquista de direitos efetivos.
Seo também defendia o estudo no exterior como forma de conhecer instituições e técnicas. Sua própria passagem pelo Japão e pelos Estados Unidos ajuda a compreender essa prioridade. Ainda assim, observar modelos estrangeiros não resolvia o problema de sua adaptação à realidade coreana. A tensão entre aprender com outros países e preservar autonomia atravessava tanto os projetos educacionais quanto os esforços de reorganização política.
O que essa história oferece ao Brasil
Para o público brasileiro, a conexão mais consistente com essa trajetória é histórica e cultural, não a promessa de um efeito imediato sobre negócios. O relato de Seo não apresenta dados sobre comércio bilateral, investimentos ou iniciativas de empresas brasileiras. Seu valor está em ampliar o repertório com que se acompanha a Coreia: para além dos produtos e do entretenimento, existe uma história de conflitos sobre informação, soberania e acesso ao poder.
Há uma comparação útil com o Brasil da passagem do Império para a República. Por aqui, jornais e associações também serviram de espaços para campanhas, controvérsias e mobilização política, inclusive em torno da abolição e do republicanismo. Isso não torna equivalentes as experiências dos dois países. A escravidão e seu legado, no caso brasileiro, e as pressões imperiais sobre a península, no caso coreano, exigem explicações próprias. A aproximação ajuda a formular perguntas, não a apagar diferenças.
Uma delas é especialmente relevante: quem consegue transformar liberdade formal em participação real? O Brasil republicano conviveu, durante décadas, com profundas restrições eleitorais e exclusão de analfabetos do voto. Essa experiência oferece aos leitores brasileiros um ponto de referência para entender por que falar em democracia numa associação do século 19 não significa descrever uma sociedade em que todos já podiam decidir. Instituições e vocabulário político podem mudar antes que o acesso ao poder se amplie.
Para brasileiros que chegam à história coreana por meio de séries de época, a trajetória de Seo também fornece um mapa de conceitos. Joseon era uma dinastia; Hanseong era a capital hoje chamada Seul; os exames civis organizavam uma importante via de entrada no governo; e os reformistas discordavam entre si. São distinções que ajudam a separar ambientação dramática de processo histórico e a reconhecer que a Coreia contemporânea não surgiu de uma modernização consensual ou automática.
Um legado que não cabe numa história de progresso inevitável
A vida de Seo continuou ligada aos Estados Unidos e ao apoio à independência coreana a partir do exterior. Esse percurso mostra que a história nacional também foi construída por pessoas que viviam longe do território de origem. A circulação de conhecimentos, a experiência do exílio e a formação de vínculos internacionais integraram a atuação de alguém que transitou entre a medicina, o serviço público, a imprensa e a mobilização política.
Não seria correto, porém, traçar uma linha direta entre seu jornal de 1896 e a democracia sul-coreana atual. Entre esses momentos houve colonização, divisão da península, guerra e regimes autoritários, além de lutas posteriores pela democratização. Seo pertence a essa história como um de seus antecedentes, não como explicação suficiente para seu resultado. Sua importância aumenta, em vez de diminuir, quando é situada dentro dos limites e das contradições de seu tempo.
O que permanece relevante é a mudança de foco que sua atuação representa: reformar um país não depende apenas de decretos, armas ou decisões de uma elite. Depende também de quem recebe informação, de quem pode contestar argumentos e de quais espaços permitem a organização coletiva. Para leitores brasileiros e coreanos, o legado do Dongnip Sinmun e da Associação da Independência oferece uma pergunta comum: quando novas ideias chegam à sociedade, quem ganha condições reais de participar?
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