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Uma Coreia que não cabe apenas na cultura pop
Para o público brasileiro que se aproxima da Coreia do Sul pelas séries, pelo cinema ou pelo K-pop, a trajetória de Yi Sang abre uma janela para um país muito diferente daquele associado à indústria global do entretenimento. Morto em 1937, aos 26 anos, o poeta e ficcionista escreveu quando a península coreana estava sob domínio colonial japonês. Sua matéria-prima era uma modernidade atravessada por doença, instabilidade financeira, relações afetivas conflituosas e uma sensação persistente de desencontro com o mundo.
Em vez de organizar essa experiência em narrativas confortáveis, Yi Sang desmontou as ferramentas usadas para contá-la. Experimentou com a gramática, incorporou símbolos matemáticos e deu mais espaço à vida interior dos personagens do que à progressão convencional de uma história. Em seus textos, a dificuldade não é necessariamente um obstáculo a ser removido: pode ser parte da experiência proposta ao leitor.
Dois trabalhos concentram esse legado: a sequência poética Ogamdo e o conto Nalgae, cujo título significa Asas. O primeiro provocou reclamações suficientes para ter sua publicação interrompida; o segundo atraiu a atenção da crítica. Juntos, ajudam a entender uma mudança importante na literatura coreana: a abertura de espaço para formas que recusavam explicar o indivíduo e a sociedade por caminhos lineares.
O desenhista que passou pela arquitetura
Yi Sang nasceu como Kim Hae-gyeong, em 23 de setembro de 1910, em Gyeongseong, nome usado para Seul naquele período. Era o mais velho de três irmãos. Seu pai, que trabalhava em uma oficina de impressão ligada à corte, perdeu um dedo e passou a sustentar a família com uma barbearia. Ainda pequeno, o futuro escritor foi morar com um tio paterno, que financiou seus estudos, mas também depositou nele a expectativa de elevar a posição da família.
A formação escolar foi acompanhada pelo desejo de pintar. Na infância, conheceu Gu Bon-ung, que se tornaria artista e amigo por toda a vida. Em 1925, uma paisagem a óleo de sua autoria foi selecionada para uma exposição escolar. No ano seguinte, ingressou no curso de arquitetura da Escola Superior de Engenharia de Gyeongseong, concluído em 1929 como primeiro colocado da turma.
Esse percurso importa porque sua literatura não surgiu isolada das artes visuais e do desenho técnico. Antes de ser reconhecido como escritor, ele já lidava com linhas, proporções, superfícies e organização espacial. Ler a presença de números e de construções pouco usuais em seus poemas à luz dessa formação é uma possibilidade crítica, embora não se deva reduzir toda a sua invenção literária a uma consequência do diploma.
Também a origem do pseudônimo está cercada por memória e testemunho. Segundo um relato, o nome Yi Sang se relacionaria a uma caixa de materiais de pintura feita de madeira de ameixeira, presente de Gu Bon-ung. É uma versão sobre a escolha do nome, não uma explicação definitivamente estabelecida.
Escrever dentro da estrutura colonial
Por recomendação da escola, Yi Sang começou a trabalhar como técnico de arquitetura na administração colonial japonesa. Participou de uma associação profissional e teve projetos gráficos premiados em um concurso para capas da revista Joseon e Arquitetura. Continuava, ao mesmo tempo, a pintar: em 1931, um autorretrato seu foi selecionado para uma exposição de arte.
A estreia literária ocorreu em 1930, com a publicação seriada de 12 de dezembro, seu único romance longo. O veículo era a edição em coreano da revista Joseon, utilizada pela administração japonesa para divulgar suas políticas coloniais. Nos anos seguintes, publicou poemas em japonês na revista de arquitetura. Só depois sua produção em língua coreana ganharia maior presença em periódicos literários.
Para o leitor brasileiro, essa circulação entre idiomas e instituições exige contexto. O domínio japonês sobre a Coreia, de 1910 a 1945, não era apenas uma influência cultural estrangeira: constituía uma relação de poder político. Trabalhar para a administração e escrever em espaços vinculados a ela fazia parte das condições concretas em que sua trajetória se desenvolveu.
Esses dados, porém, não bastam para atribuir automaticamente uma posição política a cada obra. O cuidado é não transformar toda escolha formal em gesto explícito de resistência, nem apagar a estrutura colonial que condicionava empregos, publicações e possibilidades de circulação. A tensão entre criação individual e instituições é parte incontornável dessa história.
Doença, cafés e a dificuldade de se sustentar
Diagnosticada em 1931, a tuberculose passou a interferir diretamente na vida profissional de Yi Sang. Dois anos depois, em meio a atritos com um novo superior japonês e ao agravamento dos episódios de tosse com sangue, ele deixou o emprego. Buscou recuperação em uma estação de águas termais em Baechon, na província de Hwanghae, onde conheceu Geum-hong.
Os dois passaram a viver juntos e administraram o Jebi, em Jongno, região central de Seul. O estabelecimento era um dabang, palavra coreana usada para casas de chá e café. Não se tratava simplesmente do equivalente histórico de uma cafeteria de rede: no ambiente urbano daquele período, esses espaços também podiam servir à convivência e à circulação de artistas e escritores. A comparação com cafés frequentados por intelectuais no Brasil ajuda a situar sua função, sem tornar idênticas as duas experiências.
O empreendimento não resolveu a precariedade material. Problemas financeiros se somaram aos conflitos do casal. Geum-hong foi embora em 1935, e o Jebi encerrou as atividades em setembro daquele ano. Em outra tentativa comercial, o escritor chegou a hipotecar a casa dos pais para assumir um café em Insa-dong.
A sequência ajuda a desfazer a imagem do artista que experimenta livremente, protegido das necessidades práticas. Sua produção convivia com trabalho, dívidas e doença. Isso não torna a privação uma condição necessária para a criação, mas mostra o quanto sua carreira se construiu sem estabilidade.
Quando o jornal abriu espaço para um poema difícil
A aproximação com escritores ligados ao Guinhoe, grupo literário conhecido como Grupo dos Nove, ampliou as possibilidades de publicação de Yi Sang. A partir de 1933, ele manteve contato com nomes como Yi Tae-jun, Jeong Ji-yong, Kim Ki-rim e Park Tae-won. Por intermediação de Jeong, publicou poemas em coreano na revista Juventude Católica. Nesse período, também apareceu o poema Espelho.
O episódio decisivo viria em 1934. Com apoio de Yi Tae-jun, o jornal Joseon Jungang Ilbo começou a publicar Ogamdo em 24 de julho. A série chegou ao 15º poema em 8 de agosto, mas foi interrompida diante de protestos e críticas de leitores incomodados com a dificuldade dos textos.
Há uma dimensão editorial importante nessa reação. O poema experimental não estava restrito a um pequeno círculo de especialistas: ocupava as páginas de um jornal e encontrava pessoas com expectativas muito diferentes sobre o que a literatura deveria oferecer. O conflito expôs a distância entre a proposta do autor e os hábitos de leitura de parte do público.
Seria simplificador concluir que os leitores apenas não estavam preparados para um gênio. A interrupção também revela um problema recorrente na relação entre inovação e comunicação: até que ponto um veículo sustenta uma obra que desafia seu público? No caso de Yi Sang, a resposta imediata foi o encerramento da série. Sua permanência posterior na história literária mostra que a recepção inicial não determina, sozinha, o destino de um trabalho.
Asas e os limites da leitura autobiográfica
O ano de 1936 concentrou uma produção especialmente intensa. Yi Sang trabalhou na editora Changmunsa, por indicação de Gu Bon-ung, e editou o primeiro número de Poesia e Ficção, publicação do Grupo dos Nove. Seus contos passaram a despertar atenção crítica, entre eles Nalgae, ou Asas, que se tornaria uma de suas obras mais lembradas.
O conto apresenta um marido sem iniciativa e uma mulher que se prostitui. O nome dela, Yeon-sim, coincide com o nome de nascimento de Geum-hong. Essa aproximação, assim como a presença de relacionamentos reconhecíveis em outros textos do escritor, favorece leituras autobiográficas. Mas reconhecer elementos da vida do autor não equivale a tratar a narrativa como uma reportagem sobre pessoas reais.
Em textos como Bongbyeolgi, Yi Sang reelaborou conflitos associados à convivência com Geum-hong. Em Hwansigi, utilizou personagens vinculados a uma relação envolvendo Kwon Sun-ok e o amigo Jeong In-taek. O material biográfico passou por escolhas de voz, composição e perspectiva. As mulheres retratadas nessas obras não podem ter suas experiências integralmente reconstituídas apenas pelo olhar do escritor.
O que distingue sua ficção vai além da identificação dos modelos reais. A fragilidade da ação, a atenção ao pensamento e a exposição do isolamento deslocam o centro da narrativa. Em lugar de conduzir o leitor por uma sucessão transparente de acontecimentos, Yi Sang o aproxima de consciências que não organizam a própria experiência de maneira estável.
O que essa literatura oferece ao Brasil
No Brasil, uma porta de entrada possível é a comparação com o modernismo. Leitores familiarizados com a Semana de Arte Moderna de 1922 e com a disposição de autores como Oswald de Andrade para romper convenções podem reconhecer a pergunta que atravessa a obra de Yi Sang: por que continuar escrevendo segundo regras herdadas quando a experiência do presente parece exigir outra linguagem?
A aproximação serve como orientação, não como prova de influência. Não há, nos dados apresentados sobre sua trajetória, evidência de contato com o modernismo brasileiro. Os contextos também são distintos. Enquanto artistas brasileiros discutiam renovação estética e projetos de identidade nacional em um país independente, o autor coreano escrevia em uma sociedade submetida à administração colonial japonesa.
Para o público brasileiro interessado na Coreia, essa diferença tem valor concreto: amplia o repertório para além das imagens contemporâneas de prosperidade tecnológica e entretenimento. A literatura permite acessar conflitos históricos, experiências urbanas e debates de linguagem que não cabem na ideia de uma cultura nacional homogênea. Também impede que a produção coreana seja vista como um fenômeno que começou com seu sucesso audiovisual internacional.
Há ainda uma questão relevante para editores, tradutores e mediadores de leitura no Brasil. Obras que rompem a sintaxe ou utilizam sinais matemáticos exigem decisões que vão além de transmitir o sentido geral das frases. Explicar demais pode neutralizar o estranhamento; oferecer contexto insuficiente pode afastar o leitor. Apresentações e notas podem ajudar a situar a experiência histórica sem prometer eliminar toda dificuldade. Não há, no material disponível, números de vendas ou informações sobre novos lançamentos brasileiros que permitam afirmar uma expansão comercial específica de Yi Sang.
Uma vida encerrada em Tóquio
Em junho de 1936, Yi Sang se casou com Byeon Dong-rim, formada em inglês pela instituição de ensino feminino Ewha e tia de Gu Bon-ung. A união ocorreu apesar da oposição familiar e não foi registrada oficialmente. Ainda naquele ano, ele viajou sozinho para o Japão, onde manteve contato e discutiu literatura com outros escritores e artistas.
Em fevereiro de 1937, a polícia japonesa o prendeu por suspeitas de natureza ideológica. Após aproximadamente um mês de detenção, foi libertado com a tuberculose agravada. Internado no hospital da Universidade Imperial de Tóquio, recebeu a visita de Byeon, que viajara depois de ser avisada por telegrama sobre a gravidade de seu estado. Ele morreu em 17 de abril.
Nas lembranças de Byeon, os últimos momentos aparecem ligados a um desejo simples: comer melão. Ela saiu para comprar a fruta, mas, quando voltou e a preparou, ele já não conseguiu engolir. O relato dá uma dimensão doméstica à morte de alguém frequentemente apresentado pela excepcionalidade de sua criação. Trata-se da memória deixada por sua companheira, não de um registro clínico.
O amigo Park Tae-won escreveria sobre a falta de cuidado de Yi Sang com a própria saúde, chegando a interpretar sua morte em termos de autodestruição. Essa avaliação pertence ao luto e à percepção do amigo. Não altera a informação de que o escritor morreu de tuberculose, nem autoriza romantizar a doença como preço inevitável da invenção artística.
Da rejeição ao reconhecimento, sem perder o incômodo
O reconhecimento institucional veio muito depois. Em 1977, foi criado o Prêmio Literário Yi Sang; em 2008, surgiu também um prêmio de poesia com seu nome. O centenário de nascimento, em 2010, estimulou novas leituras tanto dos trabalhos publicados em vida quanto de textos encontrados posteriormente. O autor que havia provocado reclamações nas páginas de um jornal tornou-se referência de experimentação literária.
Essa passagem da rejeição à consagração não significa que seus textos tenham se tornado simples. Significa que mudaram os instrumentos e os espaços disponíveis para lê-los. O nome de um prêmio pode funcionar como selo de prestígio, mas o interesse da obra continua naquilo que resiste a uma leitura automática: a frase que rompe expectativas, o pensamento que interrompe a ação, a forma que participa do desconforto narrado.
Para acompanhar a circulação dessa literatura no Brasil, vale observar como traduções, projetos editoriais e atividades de formação de leitores apresentam tais escolhas. O desafio não é vender Yi Sang como uma curiosidade anterior ao K-pop, nem encontrar nele um equivalente exato de algum escritor brasileiro. É permitir o encontro com uma experiência particular de modernidade, atravessada pelo colonialismo e por uma inquietação formal radical.
Entre a série poética suspensa em 1934 e o conto que chamou a atenção da crítica em 1936, permanece uma questão que ultrapassa fronteiras: o que acontece quando a linguagem habitual já não parece suficiente? Yi Sang respondeu transformando a própria escrita em campo de investigação. É nesse gesto, mais do que na imagem trágica de sua vida breve, que se encontra a força duradoura de sua literatura.
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