O rosto de uma geração que descobriu o riso pela televisão
A história do entretenimento sul-coreano tem personagens que ajudaram a construir a relação entre público e televisão. Entre eles está Bae Samryong, um dos primeiros grandes nomes da comédia da Coreia do Sul. Conhecido pelo estilo de interpretação baseado no personagem ingênuo e pela famosa dança chamada gaedari chum, ou dança das pernas de cachorro, o artista conquistou milhões de espectadores em uma época em que a televisão começava a se tornar parte da vida cotidiana das famílias coreanas.
Nascido em 27 de dezembro de 1926, no condado de Yanggu, na província de Gangwon, Bae Samryong tinha como nome de nascimento Bae Changsoon. Antes de se tornar uma estrela nacional, ele percorreu um caminho marcado pelo teatro popular e pelos palcos itinerantes. Sua trajetória começou no final dos anos 1940, quando participou de grupos de teatro musical conhecidos como gagdan, companhias que viajavam por diferentes regiões oferecendo apresentações para públicos locais.
Esse período foi importante para a formação de uma geração de artistas coreanos que aprenderam a conquistar plateias sem depender de grandes estruturas de produção. Em um país que passava por profundas transformações sociais após a guerra, o humor funcionava como uma forma de aproximação entre artistas e cidadãos comuns.
O nascimento do astro da comédia coreana na era da televisão
A carreira de Bae Samryong ganhou uma nova dimensão com a expansão da televisão na Coreia do Sul. Em 1969, com a inauguração da MBC, uma das principais emissoras do país, ele passou a integrar programas de humor que alcançaram grande popularidade. Entre eles estava 웃으면 복이와요, título que pode ser traduzido como algo próximo de rir traz felicidade, programa que marcou a história do entretenimento coreano.
Ao lado de outros pioneiros da comédia, como Gu Bongseo e Song Hae, Bae Samryong ajudou a estabelecer a linguagem do humor televisivo sul-coreano. Sua imagem ficou associada ao personagem chamado de bobo ou ingênuo, uma figura que parecia desajeitada, mas que revelava sensibilidade e capacidade de provocar identificação no público.
O apelido Bisili tornou-se parte de sua identidade artística. O termo fazia referência ao jeito frágil e atrapalhado do personagem que interpretava. Na prática, Bae Samryong transformava limitações aparentes em uma ferramenta de humor, criando uma personalidade cômica que combinava gestos exagerados, expressões faciais e movimentos físicos marcantes.
Na cultura coreana daquele período, personagens desse tipo tinham uma função semelhante à de figuras populares do humor em outros países: representar pessoas comuns, enfrentar situações absurdas e oferecer ao público momentos de alívio em meio às dificuldades da vida diária.
Do palco ao cinema: a expansão de um artista popular
A influência de Bae Samryong não ficou restrita à televisão. A partir da metade dos anos 1970, ele também passou a atuar com frequência no cinema, participando de diversos filmes que exploravam seu talento para a comédia física e para personagens populares.
Entre seus trabalhos cinematográficos estão produções como Bae Samryongui Naneun Ureotne, Hyeongsa Bae Samryong, Chulse Jakjeon e outros títulos que levaram seu nome artístico para as salas de cinema. Ele também participou de filmes como Cheolbuji, Aecheogi, Geotji Malgo Ttwieora, Maeum Yakhaeseo e Hyeongnimmeonjeo Amumeonjeo.
A passagem entre televisão, cinema e apresentações ao vivo era uma característica comum entre grandes artistas coreanos das décadas de 1960 e 1970. Naquele momento, a indústria cultural ainda estava em formação, e os artistas precisavam desenvolver múltiplas habilidades para manter uma carreira duradoura.
Bae Samryong também participou de programas como Show Meio Século, Sorria e Receba Felicidade e Casais Felizes, ampliando sua presença junto ao público. Seu estilo simples e direto fez com que ele fosse reconhecido por diferentes gerações de espectadores.
A conexão com o Brasil: memória cultural e evolução do humor popular
A trajetória de Bae Samryong pode ser observada pelos brasileiros como parte de um fenômeno mais amplo: a construção de identidades nacionais por meio do humor popular. Assim como o Brasil teve artistas que marcaram gerações com personagens característicos em programas de rádio, teatro e televisão, a Coreia do Sul também teve seus pioneiros que ajudaram a criar uma linguagem própria de comédia.
No Brasil, nomes ligados ao humor televisivo como Chico Anysio, Ronald Golias e outros artistas construíram personagens reconhecidos pelo público durante décadas. A comparação não significa que os estilos sejam iguais, mas mostra como diferentes sociedades utilizaram o humor para registrar costumes, mudanças sociais e formas de relacionamento entre as pessoas.
Para o público brasileiro interessado na cultura coreana, especialmente após o crescimento global do interesse pela Coreia por meio da música, cinema e séries, conhecer figuras como Bae Samryong ajuda a compreender que a chamada onda coreana, ou Hallyu, não começou apenas com os fenômenos recentes do K-pop e dos dramas televisivos. Ela também foi construída por décadas de produção cultural doméstica.
Não há dados específicos que indiquem impacto direto de Bae Samryong no mercado brasileiro ou em empresas brasileiras. No entanto, sua história oferece uma perspectiva sobre como a Coreia desenvolveu uma indústria de entretenimento baseada em personagens fortes e conexão emocional com o público, elementos que hoje também aparecem nas exportações culturais coreanas acompanhadas por fãs no Brasil.
O período difícil e os desafios de uma estrela esquecida pelo sistema
A carreira de Bae Samryong também revela os desafios enfrentados por artistas de gerações anteriores. No início dos anos 1980, quando parte da sociedade coreana passou a criticar determinados estilos de comédia como sendo considerados de baixo nível cultural, ele enfrentou restrições de aparições na televisão.
Depois do auge da popularidade, o comediante passou por dificuldades pessoais e financeiras. Ele chegou a viver nos Estados Unidos por um período antes de retornar à Coreia do Sul. A partir da década de 1990, enfrentou problemas de saúde, incluindo asma e posteriormente pneumonia por aspiração.
Em 2002, seu estado de saúde chegou a preocupar familiares e admiradores. Mais tarde, em 2007, ele voltou a ser internado para tratamento no Hospital Asan, em Seul, enfrentando também dificuldades relacionadas aos custos médicos. Colegas de profissão, incluindo comediantes como Um Yongsoo, Yoo Jaeseok e Kim Yongman, participaram de ações de apoio financeiro.
Esse episódio mostrou a forte relação de solidariedade existente dentro do meio artístico coreano. Também trouxe ao debate público a situação de artistas veteranos que contribuíram para a cultura nacional, mas enfrentaram dificuldades durante a velhice.
O legado de Bae Samryong para as novas gerações
Bae Samryong morreu em 23 de fevereiro de 2010, aos 85 anos, em decorrência de pneumonia por aspiração. Apesar das dificuldades enfrentadas no final da vida, sua contribuição para a comédia sul-coreana permaneceu reconhecida.
Ao longo dos anos, recebeu diversas homenagens. Em 1996, ganhou o Prêmio de Contribuição ao Desenvolvimento do Entretenimento no Korea Entertainment Arts Awards. Em 2001, entrou para o Hall da Fama da MBC na categoria de comédia. Em 2003, recebeu a Ordem do Mérito Cultural no décimo Korea Entertainment Arts Awards, e em 2010 recebeu um prêmio honorário no Baeksang Arts Awards.
O reconhecimento demonstra que sua importância ultrapassou o sucesso momentâneo de seus programas. Ele representa uma fase em que a televisão coreana estava criando seus próprios símbolos populares e formando uma tradição de humor baseada em personagens facilmente reconhecidos pelo público.
Quando novas gerações de comediantes coreanos aparecem na televisão, em programas de variedades ou em plataformas digitais, elas continuam fazendo parte de uma história iniciada por artistas como Bae Samryong. Seu humor físico, sua capacidade de criar empatia e sua presença marcante ajudaram a estabelecer as bases da comédia moderna da Coreia do Sul.
Para espectadores estrangeiros, incluindo brasileiros que acompanham a cultura coreana, conhecer sua trajetória é uma oportunidade de olhar além dos fenômenos atuais e entender as raízes de uma indústria cultural que hoje possui alcance mundial.
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