Choi Ik-hyeon: o defensor da soberania coreana que também resistiu à modernização

Choi Ik-hyeon: o defensor da soberania coreana que também resistiu à modernização

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Uma trajetória entre a resistência e a conservação

O homem que enfrentou a expansão japonesa na Coreia também combateu a abertura comercial, rejeitou reformas e defendeu uma sociedade organizada pela autoridade do rei e pela tradição confucionista. Choi Ik-hyeon reúne posições que, vistas do Brasil de hoje, podem parecer contraditórias. Na península coreana do século 19, porém, preservar a soberania e proteger a ordem tradicional eram, para ele, partes de uma mesma missão.

Funcionário da corte, crítico de governantes e líder de resistência armada, Choi se tornou um dos nomes associados à oposição ao acordo imposto pelo Japão em 1905, que transformou a Coreia em um protetorado japonês. Sua trajetória ajuda a compreender um processo mais amplo: como a pressão imperialista deslocou parte da elite letrada coreana da atuação dentro do Estado para o confronto com a dominação estrangeira.

Reduzi-lo a um herói nacional sem contradições, no entanto, apaga elementos importantes dessa história. Sua defesa do país convivia com a intolerância a correntes rivais e com a rejeição de mudanças sociais. Entender essas duas dimensões permite olhar para a formação da Coreia moderna sem projetar sobre seus personagens as categorias políticas atuais.

A educação como compromisso com o rei e o país

Choi nasceu em 14 de janeiro de 1834, em Pocheon, na província de Gyeonggi, na região que hoje integra a Coreia do Sul. A família tinha poucos recursos e mudou de residência diversas vezes. Sua formação intelectual, entretanto, abriu caminho para uma carreira pública em uma sociedade na qual o domínio dos clássicos era uma importante credencial de acesso à administração.

Aos 14 anos, por determinação do pai, passou a estudar com Yi Hang-ro, um mestre do neoconfucionismo. Essa tradição não era apenas uma filosofia de comportamento individual. Na dinastia Joseon, que governava a Coreia, oferecia fundamentos para a educação, as relações familiares, as hierarquias sociais e o exercício do poder. Estudar os clássicos significava também aprender como o governo deveria funcionar.

Entre os ensinamentos recebidos estava a ideia de amar o soberano como a um pai e preocupar-se com o país como com a própria casa. Para leitores brasileiros, a comparação familiar ajuda a perceber a distância em relação à cidadania republicana: a lealdade política de Choi se estruturava em torno de deveres morais para com o monarca, e não da soberania popular.

Foi Yi Hang-ro quem lhe deu o nome literário Myeonam, pelo qual também ficou conhecido. Choi se vinculou à linhagem intelectual Noron, uma corrente influente da elite confucionista. Essa ligação sustentou sua atuação, mas também delimitou suas escolhas: a defesa do que considerava correto frequentemente se confundia com a preservação da autoridade de seu próprio grupo.

Um funcionário que denunciava os custos do poder

Em 1855, Choi se destacou em uma prova de interpretação dos clássicos e conseguiu acesso à etapa que o levou à carreira oficial. Os exames de Joseon podem lembrar, em termos muito gerais, a importância dos concursos públicos no Brasil. A semelhança termina aí: o conteúdo, os critérios sociais de acesso e a organização do Estado eram profundamente diferentes.

Ele ocupou postos na administração central e local, inclusive em órgãos responsáveis por fiscalizar condutas e advertir autoridades. Nesse ambiente, criticar decisões do governo podia ser entendido como um dever do funcionário letrado. A crítica, contudo, precisava circular dentro de uma monarquia em que contrariar pessoas poderosas podia resultar em afastamento ou punição.

Um dos principais instrumentos utilizados por Choi era a petição formal ao rei, chamada sangso. Não se tratava de uma campanha eleitoral ou de um discurso parlamentar. Era uma manifestação dirigida ao soberano, na qual o autor apresentava argumentos morais e políticos para corrigir o rumo da administração. Ao longo de sua vida, essas petições foram tanto ferramentas de influência quanto motivos de perseguição.

Em 1868, ele questionou os custos da reconstrução do Palácio Gyeongbokgung. Apontou desperdício de recursos, dificuldades de subsistência entre os trabalhadores convocados compulsoriamente e efeitos da emissão da moeda de alto valor nominal conhecida como dangbaekjeon. Sua denúncia relacionava o projeto de prestígio da monarquia à alta de preços e ao desequilíbrio financeiro. Era uma crítica concreta ao custo social da concentração de recursos em uma grande obra.

Alianças de corte e limites da independência política

A relação de Choi com Heungseon Daewongun, pai do rei Gojong e responsável pelo governo durante a menoridade do filho, começou com apoio. Ambos se opunham à concentração de poder nas mãos do clã Kim de Andong. Com o tempo, porém, Choi passou a contestar o governante, tanto por suas políticas quanto pela abertura de espaço a grupos rivais dos Noron.

Esse componente é essencial para não apresentar todo conflito como um embate simples entre integridade e corrupção. Havia convicções, mas também disputas de facções, linhagens e prestígio intelectual. Choi podia denunciar os sacrifícios impostos à população e, simultaneamente, defender instituições que preservavam a influência de seu campo político.

Em 1873, a oposição ao Daewongun chegou a um ponto decisivo. A rainha, posteriormente conhecida como imperatriz Myeongseong, buscava afastar o sogro do poder. Choi apresentou uma petição sustentando que Gojong já era adulto e deveria governar diretamente. O documento contribuiu para a queda do Daewongun após aproximadamente uma década de domínio político.

A aproximação com os vencedores não lhe garantiu estabilidade. Choi também criticou integrantes do clã Min, ligado à rainha, e terminou interrogado e enviado ao exílio na ilha de Jeju. A punição restringia seus movimentos por meio de uma cerca em torno da residência. Sua trajetória mostra como a disposição de repreender autoridades podia ultrapassar alianças circunstanciais, sem que isso o transformasse em defensor do pluralismo.

Ele foi, de fato, contrário à reabilitação de adversários históricos de sua corrente e chegou a defender punições por traição contra pessoas que a solicitavam. A firmeza celebrada em sua memória tinha, portanto, uma face excludente: proteger a ordem legítima, em sua interpretação, também significava impedir que tradições concorrentes recuperassem espaço.

O machado diante do portão do palácio

Em 1876, Choi protagonizou um dos episódios mais marcantes de sua vida pública. Contrário ao Tratado de Ganghwa, que abriu portos coreanos ao comércio japonês sob pressão, foi ao portão Gwanghwamun levando um machado. O gesto acompanhava uma petição com cinco razões para rejeitar a abertura. A mensagem simbólica era extrema: antes de aceitar aquele caminho, estava disposto a perder a própria cabeça.

O episódio expressava uma corrente conhecida como wijeong cheoksa. Em termos acessíveis, era a defesa daquilo que seus integrantes consideravam a ordem correta e a rejeição das doutrinas e influências vistas como ameaças a ela. Essa ordem tinha como referência o neoconfucionismo, a autoridade monárquica e os ensinamentos clássicos.

Não seria preciso descrever Choi como um defensor do protecionismo no sentido econômico atual. Sua oposição ia além de tarifas ou da proteção de produtores locais: envolvia a convicção de que a entrada de ideias, costumes e instituições estrangeiras podia desestruturar moralmente o país. Comércio, cultura e soberania apareciam entrelaçados.

A petição não impediu o acordo. Choi foi enviado ao exílio em Heuksando e libertado em 1879. Nos anos seguintes, a expansão dos interesses estrangeiros e das pressões políticas e militares deu força à sua advertência sobre os riscos da abertura. Isso não torna automaticamente corretas todas as suas posições: reconhecer a ameaça imperialista é diferente de concluir que qualquer transformação interna deveria ser rejeitada.

Por que um corte de cabelo se tornou questão política

Na década de 1890, a disputa sobre o futuro da Coreia avançou para aspectos cotidianos e corporais. Choi condenou as reformas Gabo, iniciadas em 1894, por considerar ilegítima a interferência estrangeira nos assuntos internos. Também se opôs à determinação de cortar o cabelo, uma medida ligada ao ciclo reformista que ficou conhecido como reformas Eulmi.

Para quem observa essa história a partir do Brasil, o cabelo pode parecer um detalhe diante de uma crise de soberania. Na tradição confucionista, porém, preservar o corpo recebido dos pais tinha valor moral. O penteado masculino tradicional também expressava pertencimento e posição social. Uma ordem estatal para modificá-lo podia ser percebida como uma agressão à identidade e aos deveres familiares.

Por isso, não basta enquadrar o conflito como resistência irracional a uma mudança de aparência. As circunstâncias de imposição importavam. Ao mesmo tempo, seria inadequado transformar toda recusa às reformas em luta por liberdade individual: Choi procurava resguardar uma organização social hierárquica e reagiu duramente à Revolta Camponesa Donghak, em 1894.

Esse contraste revela uma distinção central. Ser contrário à dominação estrangeira não significava apoiar a ampliação da participação popular. A soberania que ele defendia estava associada ao país governado segundo princípios monárquicos e confucionistas, e não necessariamente a um projeto de igualdade política.

Das petições aos exércitos de resistência

As forças conhecidas em coreano como uibyeong costumam ser chamadas de exércitos de justiça ou exércitos dos justos. Eram formações de resistência mobilizadas fora da estrutura militar regular, justificadas pelo dever de defender o país. O termo reúne experiências de diferentes momentos da história coreana e, no contexto de Choi, está ligado à reação contra a interferência e a expansão japonesas.

Traduzir uibyeong simplesmente como milícia pode confundir o leitor brasileiro. No Brasil contemporâneo, a palavra costuma remeter a organizações criminosas que controlam territórios e serviços. Aqui, o sentido é outro: grupos armados cuja legitimidade era reivindicada em nome da lealdade ao soberano e da proteção do país. Isso não significa que todos tivessem composição ou objetivos idênticos.

Quando recebeu a incumbência de convencer resistentes a se dispersarem, Choi se recusou a tratar a mobilização como algo injustificado. Argumentou que seus participantes eram pessoas movidas pela lealdade e pelo dever. Assim, uma autoridade formada para servir ao Estado afirmava que a defesa do país podia exigir contrariar a orientação imediata do governo.

A imposição do acordo de 1905 aprofundou esse impasse. Conhecido na memória coreana como Eulsa Neugyak, expressão que ressalta seu caráter coercitivo, o tratado retirou da Coreia a autonomia diplomática e estabeleceu o protetorado japonês. Não deve ser confundido com a anexação formal, ocorrida em 1910. Choi se tornou um dos líderes da resistência armada contra esse processo, e sua trajetória terminaria no exílio em Tsushima, ilha japonesa chamada Daemado em coreano.

O que essa história oferece ao público brasileiro

Não há, neste episódio histórico, base para apontar um efeito direto sobre o comércio atual entre Brasil e Coreia do Sul. Sua relevância para o público brasileiro é sobretudo cultural e interpretativa. Para leitores que se aproximam do país por séries, filmes, música ou marcas de tecnologia, conhecer os conflitos do fim de Joseon ajuda a situar a Coreia além de sua imagem contemporânea.

Também oferece uma comparação útil com o debate brasileiro sobre personagens históricos. No Brasil, figuras associadas à Independência ou à construção do Estado podem ser celebradas por uma contribuição e questionadas por sua relação com a escravidão, a exclusão política ou a preservação de privilégios. A comparação não iguala trajetórias: mostra apenas por que reconhecer uma atuação importante não exige apagar posições conservadoras ou excludentes.

Há uma diferença incontornável entre os processos nacionais. A independência brasileira, proclamada em 1822, rompeu o vínculo político com Portugal, mas manteve a monarquia e a escravidão. Já Choi procurava impedir a perda de autonomia de uma monarquia asiática diante de uma potência imperialista em expansão. Seu horizonte não era fundar uma república nem reproduzir a experiência brasileira.

Para quem acompanha produções históricas coreanas, essa distinção muda a leitura de cenas recorrentes: funcionários ajoelhados diante do rei, petições que provocam exílios, conflitos por penteados e letrados que assumem a resistência. Esses elementos não são apenas adereços dramáticos. Expressam uma sociedade na qual autoridade moral, educação e lealdade política estavam profundamente conectadas.

Uma memória que exige mais de uma lente

A trajetória de Choi permite acompanhar uma mudança de escala. O funcionário que cobrava responsabilidade no uso de recursos públicos passou a contestar a abertura imposta, defendeu a legitimidade dos resistentes e se vinculou à luta armada contra a perda de soberania. A continuidade estava no dever moral aprendido na juventude; a transformação, nos meios considerados necessários para cumpri-lo.

O ponto decisivo para compreender seu legado é manter juntas duas constatações. Choi enfrentou uma ameaça real de dominação estrangeira e assumiu custos pessoais por isso. Também combateu reformas, movimentos populares e adversários intelectuais em nome de uma ordem que não aceitava tratar todas as posições como legítimas.

Ao encontrar seu nome em narrativas sobre a história coreana, vale observar quais dessas dimensões recebem destaque e quais desaparecem. Entre o retrato do patriota irrepreensível e o do conservador incapaz de aceitar mudanças, existe uma história mais esclarecedora: a de um homem cuja defesa do país nasceu da tradição e encontrou, na expansão imperialista, um desafio que as petições ao rei já não conseguiam conter.

Source: Original Korean article - Trendy News Korea

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