Como “Haeundae” transformou Busan em cenário de catástrofe e abriu espaço para o blockbuster à coreana

Imagem para ajudar a entender a matéria
Uma onda gigante sobre o cotidiano de Busan
Antes que uma muralha de água avance sobre uma das praias mais conhecidas da Coreia do Sul, “Haeundae” dedica boa parte de sua narrativa a algo menos espetacular e, justamente por isso, decisivo: a vida comum. Lançado em 2009 e dirigido por Yoon Je-kyoon, o filme acompanha moradores, trabalhadores, turistas, casais e famílias ligados ao distrito litorâneo de Haeundae, em Busan. A ameaça é um tsunami de proporções devastadoras, mas o centro dramático está nas relações que podem ser interrompidas quando a rotina deixa de oferecer qualquer sensação de segurança.
Para o público brasileiro, uma maneira de compreender a importância de Haeundae é pensar em um lugar que reúne praia urbana, turismo de massa, identidade regional e intensa ocupação durante o verão. Não existe uma equivalência perfeita, mas a concentração de banhistas pode lembrar imagens de Copacabana em feriados e grandes eventos, enquanto o orgulho local e a relação cotidiana dos moradores com o mar evocam diferentes cidades do litoral brasileiro. No caso sul-coreano, porém, Haeundae é também um símbolo de Busan, a segunda maior cidade do país e seu principal centro portuário.
O diretor, nascido em Busan, concebeu a história após o tsunami do Oceano Índico de 2004, uma das maiores tragédias naturais da história recente. Ele estava em Haeundae quando acompanhou as notícias e formulou a pergunta que orientaria o projeto: o que aconteceria se um tsunami atingisse a praia no auge da temporada, quando cerca de 1 milhão de pessoas poderiam circular pela região? A ideia deslocava para um espaço profundamente familiar aos sul-coreanos um desastre que, naquele momento, havia chocado o planeta.
Esse vínculo pessoal ajuda a explicar por que a praia não aparece apenas como cartão-postal. Para os visitantes, ela pode representar férias, hotéis e lazer. Para os personagens, é lugar de trabalho, memória, culpa, afeto e pertencimento. A catástrofe não ameaça um cenário abstrato criado em computador, mas uma comunidade que o roteiro procura tornar reconhecível antes de colocá-la em risco.
O blockbuster que ajudou a redefinir o cinema comercial coreano
“Haeundae” ultrapassou a marca de 10 milhões de espectadores nos cinemas da Coreia do Sul. No mercado sul-coreano, a expressão “filme de 10 milhões” funciona como uma categoria cultural própria. Como o país tem uma população muito menor que a brasileira, alcançar esse número significa mobilizar uma parcela extraordinária da sociedade. O resultado transforma uma produção em assunto nacional e costuma assegurar a ela um lugar duradouro na memória popular.
O feito foi especialmente relevante porque, no fim dos anos 2000, ainda havia dúvidas sobre a capacidade da indústria local de produzir um filme-catástrofe de grande escala. O gênero estava associado principalmente a Hollywood, com seus orçamentos elevados, equipes internacionais e efeitos visuais caros. O projeto de Yoon Je-kyoon nasceu sob o risco de parecer pequeno diante dessas referências ou de não conseguir combinar uma tragédia convincente com personagens capazes de interessar ao público.
O orçamento informado foi de 16 bilhões de won, ou 160억 na contagem coreana, sistema que agrupa valores em unidades de 100 milhões. Embora representasse um investimento expressivo para o cinema do país, era inferior a um décimo do custo de grandes produções hollywoodianas comparáveis, segundo os registros divulgados sobre o filme. A equipe trabalhou durante cerca de cinco anos no desenvolvimento, com aproximadamente um ano dedicado ao roteiro. As filmagens começaram em agosto de 2008 e envolveram atividades na Coreia do Sul e nos Estados Unidos antes da estreia, em 22 de julho de 2009.
O sucesso mostrou que o cinema comercial sul-coreano podia disputar a atenção do público com uma superprodução ancorada em geografia, humor e relações sociais locais. Essa combinação se tornaria cada vez mais importante na expansão internacional do audiovisual do país. Em vez de apagar marcas culturais para parecer universal, muitas obras coreanas passaram a alcançar espectadores estrangeiros justamente por contar histórias muito específicas com recursos técnicos competitivos.
Heróis imperfeitos, famílias separadas e culpas antigas
O eixo principal da história é formado por Choi Man-sik, interpretado por Sol Kyung-gu, e Kang Yeon-hee, vivida por Ha Ji-won. Nativo de Haeundae, Man-sik carrega a lembrança de uma viagem de pesca em alto-mar durante o tsunami de 2004. Naquela ocasião, o pai de Yeon-hee morreu, e a culpa associada ao episódio impede o personagem de expressar plenamente seus sentimentos por ela. Quando finalmente se prepara para pedi-la em casamento, a ameaça que parecia distante começa a se aproximar da costa.
Em paralelo, o geólogo Kim Hwi, papel de Park Joong-hoon, identifica sinais preocupantes nas águas próximas a Tsushima e no mar a leste da península coreana. Os dados, em sua avaliação, lembram as condições observadas na época do tsunami da Indonésia. A agência responsável pela prevenção de desastres, no entanto, considera improvável que um fenômeno dessa magnitude alcance a península com base em análises geológicas e estatísticas.
A oposição entre o alerta técnico e a incredulidade institucional é uma estrutura conhecida do cinema-catástrofe, mas ganha força porque a narrativa não abandona os conflitos familiares. Kim Hwi precisa lidar com a ex-mulher, Lee Yoo-jin, interpretada por Uhm Jung-hwa, e com a filha do casal, Kim Ji-min, vivida por Kim Yoo-jung. O risco científico e a distância emocional avançam simultaneamente, aproximando uma crise pública de uma história doméstica.
Outro núcleo reúne o integrante da equipe de resgate marítimo Choi Hyung-sik, interpretado por Lee Min-ki, e Kim Hee-mi, personagem de Kang Ye-won. Kim In-kwon aparece como Oh Dong-choon, enquanto Song Jae-ho, Kim Ji-young e Chun Bo-geun completam a rede familiar de Man-sik. Em vez de concentrar a solução nas mãos de um protagonista quase invulnerável, o roteiro distribui a experiência da tragédia entre pessoas com diferentes responsabilidades, medos e vínculos.
Quando Tsushima afunda e desencadeia o tsunami, a onda se desloca em direção a Busan a uma velocidade apresentada como 800 quilômetros por hora. Restam apenas dez minutos para quem está na praia e em áreas próximas. A contagem regressiva converte sentimentos adiados em decisões imediatas. Pedidos de desculpa, deveres familiares e gestos de proteção deixam de ser intenções abstratas. Sem depender apenas da pergunta sobre quem sobrevive, o filme procura saber o que cada pessoa escolhe preservar quando já não há tempo para reorganizar a própria vida.
O que torna o desastre especificamente coreano
Yoon Je-kyoon afirmou que não pretendia simplesmente reproduzir o modelo hollywoodiano. Sua proposta era realizar um filme de desastre com humor, melodrama e o que na Coreia costuma ser descrito como “cheiro de gente”, expressão relacionada ao calor humano das relações cotidianas. O conceito não significa diminuir a gravidade da tragédia, mas insistir que o impacto visual só funciona plenamente quando o público reconhece as pessoas atingidas.
Essa escolha ajuda a explicar o espaço concedido às hesitações amorosas, às brigas de família, à convivência entre vizinhos e às situações cômicas anteriores ao tsunami. Para espectadores acostumados a narrativas coreanas, a alternância entre humor amplo e emoção intensa não é necessariamente uma ruptura de tom. Ela faz parte de uma tradição popular presente tanto no cinema quanto nas séries televisivas do país, em que personagens podem atravessar constrangimento, comédia, sacrifício e luto dentro da mesma história.
Também há uma dimensão regional importante. Busan possui sotaque próprio, forte identidade portuária e uma cultura frequentemente apresentada em contraste com Seul, centro político, financeiro e midiático da Coreia do Sul. O filme incorpora essa personalidade por meio dos moradores e de referências ao beisebol, esporte de enorme popularidade no país. Jogadores do Lotte Giants, clube de Busan, como Lee Dae-ho e Jang Won-jun, aparecem como eles mesmos. O comentarista Heo Koo-youn, o narrador Han Myung-jae e Jerry Royster, então técnico da equipe, também fazem participações.
Para um brasileiro, o uso do esporte local pode ser comparado à presença de jogadores, narradores e símbolos de um clube profundamente associado a uma cidade. Não se trata apenas de colocar celebridades diante da câmera. Essas participações ajudam a convencer o público de que aquela é a Busan vivida por seus habitantes, e não uma paisagem genérica escolhida para ser destruída digitalmente.
O resultado é uma obra em que a escala global do medo convive com códigos muito locais. Tsunamis podem ser compreendidos por espectadores de qualquer país, mas o significado de perder Haeundae depende da relação construída entre a praia e seus personagens. Essa estratégia antecipa uma característica que se tornaria central na projeção mundial da cultura sul-coreana: histórias enraizadas no cotidiano nacional, mas estruturadas para dialogar com emoções universais.
Tecnologia limitada pelo orçamento, ambição sem fronteiras
A realização das sequências de destruição exigiu uma cooperação técnica internacional. A produção recrutou o especialista em efeitos visuais Hans Uhlig, profissional com trabalhos associados a títulos como “Star Wars: Episódio VI — O Retorno de Jedi”, “Impacto Profundo”, “Mar em Fúria” e “O Dia Depois de Amanhã”. A contratação sinalizava a intenção de combinar experiência acumulada em Hollywood com a infraestrutura cinematográfica que se desenvolvia rapidamente na Coreia do Sul.
O desafio não era apenas criar uma onda gigantesca. Era inserir o fenômeno em uma área urbana real e facilmente reconhecida, preservando a sensação de escala e proximidade. Uma praia repleta de edifícios, avenidas, hotéis e banhistas exige efeitos que interajam com numerosos elementos da imagem. Ao mesmo tempo, o orçamento obrigava a equipe a selecionar cuidadosamente onde concentrar recursos.
O trabalho recebeu o prêmio técnico no 30º Blue Dragon Film Awards, uma das principais premiações do cinema sul-coreano, concedido à equipe de computação gráfica. “Haeundae” também levou o reconhecimento de filme coreano com maior público naquele ano. No Grand Bell Awards, outra cerimônia tradicional do setor, Yoon Je-kyoon ganhou o prêmio de planejamento. O filme ainda acumulou distinções de roteiro, direção, fotografia, produção e atuação em eventos como o Buil Film Awards, o Korean Association of Film Critics Awards, o Directors Cut Awards e o Baeksang Arts Awards.
As premiações ajudam a dimensionar o lugar do longa para além da bilheteria. A obra foi tratada como conquista industrial, resultado de planejamento e coordenação técnica, mas também como produto de autores e intérpretes. Essa dupla leitura é fundamental: “Haeundae” não se tornou fenômeno exclusivamente porque mostrou uma cidade sendo atingida pelo mar. A realização técnica chamou espectadores, enquanto o melodrama e a identificação com os personagens sustentaram a experiência coletiva.
O que “Haeundae” representa para o público e o mercado brasileiro
No Brasil, o filme oferece uma porta de entrada para uma etapa anterior à atual popularização global da cultura sul-coreana. Hoje, parte do público brasileiro acompanha lançamentos do K-pop, séries conhecidas como K-dramas e produções cinematográficas premiadas internacionalmente. Em 2009, porém, essa circulação era mais restrita. “Haeundae” pertence ao período em que a indústria coreana consolidava blockbusters para seu mercado interno e demonstrava que podia adaptar gêneros de grande apelo sem abandonar referências nacionais.
Para distribuidores, plataformas e empresas brasileiras do audiovisual, a trajetória do longa reforça uma lição que ganhou relevância com a expansão do conteúdo coreano: produções locais não precisam imitar integralmente o padrão dos Estados Unidos para viajar. O diferencial pode estar na combinação entre acabamento técnico e identidade cultural. No caso brasileiro, isso sugere uma reflexão aplicável a filmes de gênero ambientados em espaços reconhecíveis, com sotaques, hábitos e conflitos próprios do país. A comparação, evidentemente, não significa que as condições de financiamento, distribuição e público sejam iguais.
Há também uma aproximação temática. O Brasil não enfrenta tsunamis com a recorrência de países situados em áreas sísmicas mais ativas, e seria incorreto sugerir uma equivalência de risco. Ainda assim, o público brasileiro conhece os efeitos de desastres associados à ocupação urbana, a eventos climáticos extremos e a falhas de prevenção. Nesse sentido, a tensão entre o aviso de especialistas e a demora das instituições pode gerar identificação, desde que se preservem as diferenças geológicas, políticas e sociais entre os dois países.
Para fãs brasileiros da produção cultural coreana, rever “Haeundae” permite reconhecer atores que depois circularam amplamente por filmes e séries disponíveis internacionalmente. Também ajuda a entender que a chamada onda coreana, ou Hallyu, não é formada apenas por romances televisivos e música pop. O termo designa a expansão global de diferentes produtos culturais sul-coreanos, incluindo cinema, gastronomia, beleza, moda e jogos. Blockbusters domésticos como este forneceram escala, experiência técnica e confiança empresarial para uma indústria que mais tarde ampliaria sua presença no exterior.
Não há, nas informações disponíveis sobre o filme, base para atribuir a ele um efeito comercial específico no Brasil ou afirmar números de audiência no país. Sua relevância para o leitor brasileiro está sobretudo na perspectiva histórica e comparativa: trata-se de um exemplo de como uma cinematografia nacional pode transformar um gênero importado, incorporar características locais e conquistar um público de massa antes de alcançar maior reconhecimento internacional.
Sucesso também expôs o problema da pirataria
Enquanto ainda atraía multidões aos cinemas, “Haeundae” teve uma cópia ilegal divulgada na internet. A distribuidora CJ Entertainment informou que trabalharia para remover os arquivos e que poderia adotar medidas legais contra quem lucrasse com a distribuição não autorizada. O episódio revelou o outro lado de um grande sucesso: quanto maior o interesse, maior o incentivo para a circulação clandestina.
A questão permanece atual no mercado audiovisual global. A popularização do streaming tornou o acesso internacional mais rápido em muitos casos, mas não eliminou lançamentos fragmentados por território, janelas diferentes de exibição e violações de direitos autorais. Para obras produzidas fora do eixo de Hollywood, a distribuição legal também influencia a capacidade de chegar a novos públicos com legendas adequadas e remuneração para os detentores dos direitos.
No caso de “Haeundae”, o vazamento ocorreu quando o longa ainda estava construindo sua bilheteria, o que aumentou a preocupação comercial. Ao mesmo tempo, a ampla procura pelo arquivo era mais um sinal de que o filme havia deixado de ser apenas um lançamento para se tornar um acontecimento popular. O episódio integra, portanto, a história econômica da obra e das transformações tecnológicas que já alteravam o consumo de cinema no fim dos anos 2000.
Um marco para observar a evolução do cinema coreano
Visto em retrospecto, “Haeundae” ocupa uma posição estratégica. Ele veio antes da consagração mundial de títulos sul-coreanos em premiações ocidentais e antes de as plataformas digitais transformarem os K-dramas em consumo cotidiano em países como o Brasil. Sua ambição estava dirigida, em primeiro lugar, ao grande público nacional. A marca de 10 milhões de ingressos provou que o investimento em espetáculo podia ser recuperado sem dissolver a identidade regional da história.
O filme também registra uma etapa técnica específica. Efeitos visuais envelhecem à medida que ferramentas e expectativas evoluem, mas seu valor histórico está no salto que representaram para a indústria que os produziu. A pergunta mais produtiva não é apenas se cada imagem ainda convence pelos padrões atuais. É como uma equipe, com recursos muito inferiores aos de Hollywood, conseguiu organizar uma produção de cinco anos e transformar uma praia real em palco de um desastre de massa.
Como narrativa, o longa aposta na ideia de que uma catástrofe se torna mais dolorosa quando interrompe vidas reconhecíveis. O especialista que percebe o perigo é importante, mas não monopoliza a ação. O integrante do resgate tem treinamento, porém também é vulnerável. Pais, filhos, ex-cônjuges, comerciantes e moradores precisam reagir sem qualquer preparação heroica. O espetáculo nasce da onda; a emoção, do tempo investido na comunidade.
Esse equilíbrio entre melodrama, comédia popular, identidade regional e efeitos visuais explica por que “Haeundae” permanece relevante na história do cinema comercial sul-coreano. Mais do que reproduzir uma fórmula estrangeira, o filme ajudou a demonstrar que gêneros globais podem adquirir sotaque local. Para o Brasil, onde a discussão sobre escala, financiamento e identidade acompanha há décadas a produção audiovisual, essa talvez seja sua observação mais útil: o caminho até um grande público não precisa passar pelo apagamento do lugar de onde uma história vem.
Comentários
Postar um comentário