Como ‘Pamyo’ transformou túmulos, xamanismo e memória histórica em fenômeno de público na Coreia do Sul

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Um filme de terror que ultrapassou as fronteiras do gênero
Um túmulo situado em lugar suspeito, uma família atormentada por acontecimentos inexplicáveis e quatro especialistas contratados para lidar com aquilo que não pode ser resolvido pelos meios convencionais. Essa é a premissa de 《파묘》, título que pode ser entendido como “exumação” ou “desenterrar uma sepultura”, um dos maiores fenômenos do cinema sul-coreano de 2024. Escrito e dirigido por Jang Jae-hyun, o longa reúne Choi Min-sik, Kim Go-eun, Yoo Hae-jin e Lee Do-hyun em uma narrativa que combina investigação, suspense, rituais religiosos e elementos sobrenaturais.
O ponto de partida tem a eficiência de uma boa história de horror: por uma grande soma de dinheiro, um grupo aceita transferir de lugar uma sepultura cercada de sinais inquietantes. A operação, porém, liberta forças e conflitos que estavam enterrados não apenas no solo, mas também na memória. O que poderia ser somente uma sucessão de sustos torna-se uma investigação sobre a relação entre os vivos, os mortos e a terra.
Na Coreia do Sul, o filme alcançou 10,95 milhões de espectadores até abril de 2024 e tornou-se a 32ª produção da história do país a superar a marca de 10 milhões de ingressos. O resultado é especialmente relevante porque se trata de um mistério ocultista, gênero que normalmente enfrenta mais resistência do público amplo do que comédias, dramas familiares ou filmes de ação. Ao transformar crenças tradicionais em motor de uma narrativa popular, 《파묘》 mostrou que referências profundamente locais podem ser justamente o elemento capaz de ampliar, e não limitar, o alcance de uma obra.
Por que 10 milhões de espectadores representam tanto na Coreia
Para compreender o peso do resultado, é preciso considerar como a Coreia do Sul mede o sucesso de seus filmes. A expressão “filme de 10 milhões” funciona no país quase como uma categoria própria. Não indica somente uma boa bilheteria, mas a entrada da produção no repertório coletivo. Em uma população de pouco mais de 50 milhões de habitantes, vender 10 milhões de ingressos significa alcançar uma parcela expressiva do mercado e criar uma experiência compartilhada por diferentes gerações e perfis de espectadores.
A comparação com o Brasil não deve ser feita de maneira automática, porque os dois mercados têm tamanhos, preços de ingresso, redes exibidoras e hábitos de consumo distintos. Ainda assim, a proporção ajuda a entender por que a marca é tratada na imprensa coreana como acontecimento nacional. É semelhante ao que ocorre quando uma produção brasileira deixa de conversar apenas com seu público habitual e passa a ocupar salas, programas de televisão, redes sociais e discussões familiares em todo o país.
No caso de 《파묘》, o desempenho também desafia uma ideia recorrente na indústria: a de que histórias muito ligadas à cultura local seriam difíceis para o grande público. O longa não suaviza sua identidade para parecer genérico. Pelo contrário, coloca no centro da trama profissões, ritos e concepções espirituais que exigem algum grau de familiaridade ou curiosidade do espectador. A bilheteria sugere que o público respondeu não apesar dessa especificidade, mas em boa medida por causa dela.
Esse sucesso ajuda a reposicionar o terror e o ocultismo dentro do cinema comercial sul-coreano. Em vez de aparecerem como nichos isolados, esses gêneros podem servir de linguagem para discutir família, herança, território e conflitos históricos. A experiência de 《파묘》 indica ainda que produções baseadas em tradições nacionais não precisam adotar um tom didático. Elas podem apresentar seus códigos no decorrer da ação, permitindo que a tensão conduza o espectador até um universo cultural menos conhecido.
Feng shui, xamanismo e ritos funerários: quem são os quatro especialistas
O núcleo principal é formado por personagens que observam o mesmo problema a partir de campos diferentes. Choi Min-sik interpreta Kim Sang-deok, especialista em feng shui responsável por avaliar a terra. Kim Go-eun vive Lee Hwa-rim, uma mudang, nome dado em coreano a uma praticante do xamanismo. Yoo Hae-jin assume o papel de Go Yeong-geun, agente funerário encarregado de realizar os procedimentos com respeito e precisão. Lee Do-hyun interpreta Yoon Bong-gil, assistente ritual que recita textos sagrados e atua ao lado da xamã.
O feng shui é mais conhecido no Brasil por sua associação com decoração e organização de ambientes, frequentemente apresentado em revistas e conteúdos de bem-estar. No contexto do filme, porém, seu alcance é muito mais amplo. Trata-se de uma tradição que interpreta a relação entre o relevo, a orientação do terreno, os fluxos da natureza e o destino humano. Historicamente, a escolha do local de uma sepultura poderia ser entendida como uma decisão capaz de afetar não só o morto, mas também a sorte de seus descendentes.
Por isso, identificar um terreno inadequado não equivale simplesmente a apontar um problema geográfico. Para quem compartilha essa visão de mundo, a terra guarda consequências morais, familiares e espirituais. A transferência de uma sepultura exige cuidado porque interfere no vínculo entre gerações. O gesto de abrir o túmulo, portanto, já contém uma ameaça antes mesmo de qualquer manifestação sobrenatural.
O xamanismo coreano, chamado de musok, também não deve ser reduzido a uma caricatura de magia. É uma tradição popular na qual especialistas realizam ritos para intermediar relações entre seres humanos, espíritos e forças invisíveis. Uma cerimônia pode buscar acalmar uma alma, afastar influências nocivas ou restaurar algum equilíbrio. Em uma sociedade altamente tecnológica e urbanizada, essas práticas continuam presentes no imaginário cultural, ainda que sejam vistas de formas diferentes por religiosos, céticos e praticantes.
O agente funerário completa essa equipe ao representar o domínio técnico e cerimonial da morte. Seu trabalho liga a dimensão espiritual às providências concretas: preparar, retirar, transportar e sepultar restos mortais sem romper as regras do rito. A combinação dos quatro personagens evita que a solução dependa de um único herói. Cada integrante possui um conhecimento específico, e o mistério avança por meio da colaboração entre saberes que misturam observação do terreno, prática religiosa e experiência profissional.
O túmulo como espaço de família, identidade e perigo
Em muitas culturas, sepulturas são lugares de respeito e memória. Na tradição coreana, elas também podem representar a continuidade material entre antepassados e descendentes. A localização do túmulo, a forma do terreno e o cuidado dispensado aos mortos adquirem, assim, significados que ultrapassam o luto individual. A prosperidade de uma família pode ser associada ao repouso adequado de seus ancestrais, enquanto infortúnios podem alimentar suspeitas de que algo foi feito de maneira incorreta.
《파묘》 explora essa sensibilidade sem funcionar como documentário sobre religião ou história. Os conceitos tradicionais são reorganizados de acordo com as necessidades do suspense. O público não recebe uma aula formal antes de a trama começar; aprende observando os personagens trabalharem, discutirem riscos e reagirem aos sinais encontrados. Essa escolha mantém o ritmo e transforma os detalhes culturais em peças da investigação.
Para espectadores brasileiros, há um ponto de contato possível na convivência entre modernidade e crenças populares. O Brasil também combina vida urbana, ciência, religiões institucionalizadas e uma extensa variedade de práticas espirituais. Histórias sobre promessas, assombrações, proteção ritual, respeito aos mortos e consequências de perturbar determinados lugares aparecem no folclore, na literatura, na televisão e no cinema nacional. Isso não significa que o xamanismo coreano seja equivalente às religiões ou tradições brasileiras. As origens, os ritos e os contextos são distintos. A aproximação útil está na percepção de que sociedades modernas não abandonam necessariamente seus repertórios sobrenaturais; muitas vezes, eles são reelaborados pela cultura de massa.
O túmulo do filme funciona ainda como uma imagem narrativa poderosa porque contém algo oculto no sentido literal. Exumar é remover camadas, revelar o que uma família ou uma sociedade preferiu manter sob a terra. Esse mecanismo aproxima o longa de histórias policiais e dramas históricos: o medo nasce da possibilidade de que o passado não esteja encerrado e de que os vivos precisem responder por decisões tomadas antes deles.
Uma fórmula global construída com matéria-prima coreana
O público internacional reconhece em 《파묘》 elementos familiares do terror: sinais de mau agouro, regras que não devem ser quebradas, especialistas diante de uma força desconhecida e uma operação aparentemente controlada que sai do rumo. Essa estrutura oferece uma porta de entrada para quem não conhece os costumes coreanos. Ao mesmo tempo, a natureza específica das ameaças, dos rituais e dos personagens impede que a obra pareça apenas uma reprodução de modelos de Hollywood.
Essa combinação tornou-se uma das marcas mais visíveis da expansão cultural sul-coreana. Filmes e séries do país alcançam audiências estrangeiras quando articulam gêneros reconhecíveis — suspense, melodrama, ação, terror ou comédia — com tensões sociais e referências locais. Em vez de esconder diferenças culturais, muitas produções as usam como elemento de curiosidade. O espectador acompanha a história pelo suspense e, no percurso, entra em contato com outras formas de entender família, hierarquia, trabalho, religião e memória.
O diretor Jang Jae-hyun estrutura o longa em torno dessa convergência. Os personagens são profissionais competentes, não simples vítimas esperando o próximo susto. Eles observam, diagnosticam e executam procedimentos. Essa abordagem aproxima o filme de narrativas sobre equipes especializadas, nas quais parte do prazer está em acompanhar pessoas que dominam técnicas desconhecidas pelo público. O sobrenatural deixa de ser apenas uma presença abstrata e passa a ser enfrentado por meio de métodos, objetos, palavras e protocolos.
O elenco também contribui para tornar a proposta acessível. Choi Min-sik é um dos atores mais reconhecidos do cinema sul-coreano e dá peso ao especialista em terras. Kim Go-eun ocupa uma posição central como a xamã capaz de reconhecer e confrontar forças invisíveis. Yoo Hae-jin acrescenta experiência ao agente funerário, enquanto Lee Do-hyun representa uma geração mais jovem inserida nesses conhecimentos rituais. Em conjunto, os quatro ajudam a equilibrar solenidade, investigação e ação.
O passado histórico por trás do medo
À medida que a narrativa amplia seu alcance, o sobrenatural passa a se relacionar com conflitos que ultrapassam o destino de uma única família. Entre os antagonistas estão Park Geun-hyeon, interpretado por Jeon Jin-ki, e uma figura identificada como um daimyo oni, vivida por Kim Min-jun. No imaginário japonês, oni é uma entidade monstruosa ou demoníaca, enquanto daimyo era o título associado a grandes senhores feudais. A presença dessa figura introduz uma camada japonesa no mistério e liga a ameaça a disputas históricas e territoriais.
Esse aspecto ganha peso especial na Coreia do Sul, onde a memória do domínio colonial japonês, ocorrido entre 1910 e 1945, permanece sensível. Mesmo quando uma obra não reconstrói diretamente esse período, símbolos ligados ao Japão imperial podem carregar significados políticos imediatos para o público coreano. O terror, nesse contexto, torna-se uma maneira de representar feridas históricas que continuam interferindo no presente.
A proposta ajuda a explicar a avaliação positiva de parte da crítica. O crítico Lee Yong-cheol, da revista sul-coreana Cine21, atribuiu quatro de cinco estrelas ao filme e resumiu sua impressão afirmando que se trata de um gênero bem realizado e dotado de uma intenção igualmente relevante. A observação destaca justamente o equilíbrio buscado pela produção: entregar suspense e espetáculo sem esvaziar os símbolos usados na trama.
Esse tipo de construção também exige cuidado do público estrangeiro. Assistir ao longa apenas como uma luta contra fantasmas pode significar perder parte do que mobilizou os espectadores na Coreia. Os elementos históricos não funcionam como notas de rodapé. Eles alteram a natureza da ameaça e permitem que a exumação seja entendida como metáfora: aquilo que foi enterrado pela história pode continuar agindo sobre a sociedade.
O que o fenômeno significa para o público e o mercado brasileiro
Para o Brasil, a principal lição de 《파묘》 está no potencial comercial de histórias que preservam sua identidade cultural. O resumo disponível não traz números de bilheteria, dados de distribuição ou desempenho da obra no mercado brasileiro, o que impede afirmar qual foi seu alcance concreto no país. Ainda assim, o êxito sul-coreano oferece uma referência importante para exibidores, plataformas e distribuidores brasileiros atentos ao interesse crescente por produções da Coreia.
O público brasileiro já encontra na cultura sul-coreana muito mais do que música pop. A circulação internacional de filmes e séries ampliou a familiaridade com atores, gêneros e convenções narrativas do país. Nesse ambiente, uma produção de terror estrelada por nomes conhecidos pode alcançar tanto fãs habituais de conteúdo coreano quanto espectadores interessados especificamente em suspense e horror. O desafio é apresentar os elementos culturais sem tratá-los como exotismo e sem pressupor que todos conheçam conceitos como musok, mudang ou feng shui funerário.
Há também uma oportunidade para o próprio audiovisual brasileiro. O sucesso de uma obra baseada em ritos, crenças e traumas locais reforça que a internacionalização não exige apagar particularidades nacionais. O Brasil possui repertórios regionais, religiosos e históricos capazes de alimentar narrativas de horror, desde que sejam trabalhados com pesquisa, respeito e domínio de gênero. Não se trata de copiar a fórmula coreana, mas de observar seu princípio: quanto mais organicamente a cultura participa da história, maior a chance de a obra se diferenciar em um mercado global saturado de tramas semelhantes.
Para empresas brasileiras, o caso recomenda atenção a estratégias de lançamento que incluam contextualização cultural. Materiais editoriais, debates e campanhas podem explicar o papel dos personagens e dos ritos sem revelar a trama. Legendas e dublagens também enfrentam decisões importantes, porque termos religiosos e históricos nem sempre possuem equivalente direto em português. Traduzir tudo por palavras genéricas, como “feiticeira” ou “demônio”, pode facilitar a compreensão imediata, mas também apagar distinções essenciais.
Nas relações culturais entre Brasil e Coreia do Sul, fenômenos desse tipo ampliam o intercâmbio para além dos produtos mais conhecidos da onda coreana. O interesse por um thriller ancorado em sepulturas, práticas xamânicas e memória histórica indica uma audiência potencial para obras menos padronizadas. Ao mesmo tempo, recomenda cautela: o entusiasmo dos fãs não substitui dados concretos de mercado, e o desempenho excepcional na Coreia não garante automaticamente resultado semelhante no Brasil.
O que mudou e o que observar nos próximos lançamentos
O aspecto mais relevante de 《파묘》 não é apenas ter vendido milhões de ingressos, mas ter ampliado a ideia do que pode se tornar um grande sucesso popular na Coreia do Sul. Um filme ocultista, com vocabulário ritual e forte ligação com os mortos, alcançou uma marca normalmente associada às maiores produções comerciais. Isso pode estimular novos projetos que combinem tradições locais com formatos reconhecidos internacionalmente.
O risco, como ocorre sempre depois de um fenômeno, é a repetição superficial. A indústria pode tentar reproduzir túmulos, xamãs e cerimônias sem a mesma coerência narrativa. O que vale acompanhar, portanto, não é simplesmente o aumento de filmes sobre práticas espirituais, mas a maneira como novos realizadores usarão esses elementos para falar de questões contemporâneas. O sucesso de uma fórmula não está na presença isolada de símbolos, e sim na relação entre personagens, contexto histórico e conflito dramático.
Também será importante observar a recepção internacional. Conceitos conhecidos pelo público coreano exigem mediação em outros países, mas o mistério pode justamente transformar o desconhecimento em atração. Produções como essa testam a capacidade de distribuidores e plataformas de oferecer contexto suficiente sem descaracterizar a obra. Para o espectador, a experiência é mais rica quando os rituais são compreendidos como parte de uma tradição viva e complexa, e não como decoração assustadora.
Outro ponto de atenção é a permanência da sala de cinema como espaço coletivo. A marca de mais de 10 milhões de espectadores mostra que, mesmo em um cenário de forte consumo doméstico de conteúdo, determinados títulos ainda conseguem mobilizar o público a sair de casa. O horror favorece essa experiência compartilhada: sustos, silêncio e tensão ganham intensidade diante de uma plateia. No caso de 《파묘》, o componente histórico e cultural acrescentou ao espetáculo uma dimensão de conversa pública.
Por que vale olhar novamente para ‘Pamyo’
《파묘》 merece atenção não apenas como campeão de bilheteria, mas como exemplo de maturidade do cinema de gênero sul-coreano. O longa usa ferramentas clássicas do mistério e do terror para conduzir o público por um universo formado por crenças sobre a terra, obrigações com os antepassados, ritos funerários e traumas históricos. Sua identidade nasce da interação entre esses elementos, e não da simples inclusão de imagens folclóricas.
Sem revelar o desfecho, é possível dizer que a força da proposta está no ato central da exumação. Abrir uma sepultura significa violar um limite, mas também investigar aquilo que permaneceu escondido. A ideia funciona simultaneamente como ação física, ameaça sobrenatural e imagem de uma sociedade confrontada por seu passado. É essa multiplicidade que permite ao filme dialogar com espectadores interessados tanto em sustos quanto em interpretações históricas.
O fenômeno de público aponta para uma tendência mais ampla: histórias profundamente enraizadas em uma cultura podem circular pelo mundo quando são narradas com clareza e domínio cinematográfico. Para brasileiros, o longa oferece a oportunidade de conhecer aspectos do imaginário coreano sem abrir mão do prazer de uma boa narrativa de suspense. Para a indústria audiovisual, deixa uma provocação ainda mais útil: a especificidade cultural, quando integrada ao drama, pode ser uma vantagem competitiva.
Em uma época na qual produções globais frequentemente buscam parecer familiares a todos, 《파묘》 seguiu o caminho inverso. Apostou em um túmulo coreano, profissionais ligados a tradições coreanas e conflitos que carregam um peso particular para a história do país. O público respondeu em escala extraordinária. Mais do que um sucesso de 2024, o filme se tornou um caso a acompanhar para entender como o cinema sul-coreano transforma memória local em entretenimento de alcance amplo — e como outros mercados, incluindo o brasileiro, podem aprender com essa confiança nas próprias histórias.
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