Como 《The Roundup》 transformou um policial de punhos pesados em símbolo da retomada do cinema sul-coreano

Como 《The Roundup》 transformou um policial de punhos pesados em símbolo da retomada do cinema sul-coreano

Imagem para ajudar a entender a matéria

Um sucesso que ultrapassou os limites de uma continuação

Quando 《The Roundup》, título internacional de 《범죄도시2》, chegou aos cinemas sul-coreanos em 2022, o filme carregava uma tarefa mais complexa do que simplesmente repetir a fórmula de seu antecessor. A produção precisava preservar o apelo de Ma Seok-do, o policial de força quase sobre-humana interpretado por Ma Dong-seok, e ao mesmo tempo provar que aquele universo tinha fôlego para se tornar uma franquia. A resposta veio de maneira inequívoca: em 11 de junho daquele ano, o longa ultrapassou a marca de 10 milhões de espectadores na Coreia do Sul e se tornou o 28º filme da história do país a entrar no chamado clube dos dez milhões.

Essa marca tem um peso particular na indústria cinematográfica sul-coreana. Não equivale apenas a um número expressivo de ingressos vendidos. Em um país com população muito menor que a brasileira, alcançar 10 milhões de espectadores significa mobilizar uma parcela relevante da sociedade e atrair públicos que vão além dos fãs de determinado ator, diretor ou gênero. É um selo informal de fenômeno nacional, comparável ao status adquirido no Brasil por filmes que deixam de ser apenas lançamentos de sucesso e passam a fazer parte da conversa cotidiana, alcançando espectadores que raramente vão às salas.

O desempenho inicial já indicava que algo fora do comum estava em curso. 《The Roundup》 liderou a bilheteria sul-coreana e vendeu 467.525 ingressos no primeiro dia. Naquele momento, era a maior abertura de um filme coreano em 882 dias. Em apenas 18 dias, chegou a 8 milhões de espectadores, tornando-se o primeiro lançamento de 2022 no país a atingir esse patamar. Mais do que uma explosão concentrada na estreia, houve continuidade na procura, condição essencial para transformar curiosidade em fenômeno de massa.

O resultado também precisa ser observado no contexto de uma indústria que buscava recuperar o hábito coletivo de ir ao cinema. Ao combinar uma marca já conhecida, ação direta, humor e um protagonista de enorme reconhecimento popular, o filme ofereceu ao público uma experiência de fácil comunicação. Sua força não estava em reinventar o gênero policial, mas em reorganizar elementos familiares de modo suficientemente novo para justificar uma segunda visita àquele universo.

Ma Seok-do e a construção de um herói popular

Lançado em 2017, o primeiro 《The Outlaws》 apresentou Ma Seok-do como um investigador de métodos físicos, presença intimidadora e senso moral direto. Na continuação, Ma Dong-seok volta ao papel que se tornaria o centro permanente da série. Conhecido internacionalmente também como Don Lee, o ator desenvolveu uma persona cinematográfica baseada no contraste entre o porte de lutador, a eficiência brutal nas cenas de combate e um humor frequentemente seco. Seu personagem pode parecer ameaçador mesmo quando está do lado da lei, mas a narrativa estabelece com clareza quem são os criminosos contra os quais sua força será aplicada.

Em 《The Roundup》, o espaço de atuação do policial se amplia. Ma Seok-do deixa de enfrentar apenas crimes ligados ao território de sua delegacia e participa de uma operação no exterior, encontrando um caso mais violento do que o previsto. A mudança de cenário permite que a continuação preserve o protagonista e sua equipe, mas altere o tipo de ameaça e o grau de vulnerabilidade dos personagens. Fora de seu ambiente habitual, o investigador precisa lidar com limites de jurisdição, informações incompletas e uma rede criminosa que atravessa fronteiras.

A estrutura conserva uma característica recorrente dos filmes policiais sul-coreanos: a delegacia funciona como uma pequena comunidade. Os investigadores não aparecem apenas como funcionários públicos intercambiáveis. Eles ocupam posições reconhecíveis dentro de uma hierarquia, desenvolvem rivalidades, demonstram lealdade e dividem tarefas segundo experiência e temperamento. Para o espectador coreano, essas relações dialogam com uma cultura profissional fortemente marcada pela distinção entre veteranos e novatos.

Dois conceitos ajudam a entender essa dinâmica: seonbae é a pessoa mais experiente em uma instituição, enquanto hoobae designa quem chegou depois. As palavras não correspondem exatamente a chefe e subordinado. Elas envolvem senioridade, obrigações de orientação e códigos de respeito que podem continuar existindo mesmo quando os cargos formais mudam. No filme, a reorganização da equipe transforma essas relações em parte da narrativa: Oh Dong-gyun, vivido por Heo Dong-won, assume a posição de braço direito de Ma Seok-do; Kang Hong-seok, interpretado por Ha Jun, passa de novato a cérebro do grupo; e Kim Sang-hoon, papel de Jung Jae-kwang, entra como o novo integrante mais jovem.

Um novo vilão para uma fórmula conhecida

Se Ma Dong-seok fornece a continuidade, Son Suk-ku representa a principal ruptura. Ele interpreta Kang Hae-sang, criminoso que estabelece o novo eixo de confronto da trama. A escala do antagonista é decisiva para o funcionamento desse tipo de continuação: quanto mais familiar se torna o herói, maior é a necessidade de criar um adversário capaz de devolver incerteza ao embate. A força de Ma Seok-do já não constitui surpresa para o público; por isso, o suspense depende da violência, da imprevisibilidade e da mobilidade de seu oponente.

A escolha ajudou a evitar que o segundo filme parecesse uma simples repetição. O diretor Lee Sang-yong, que havia trabalhado como assistente de direção no longa de 2017, assumiu o comando e manteve a identidade visual e narrativa da série sem ficar preso ao modelo original. A operação internacional e a presença de um novo criminoso criam outra escala para a história, enquanto personagens recorrentes mantêm o vínculo emocional com o primeiro capítulo.

Entre esses retornos está Jang Yi-soo, interpretado por Park Ji-hwan, figura que ocupa um espaço ambíguo entre o universo criminal e a comédia. Choi Gwi-hwa volta como Jeon Il-man. Ao redor deles, atores como Park Ji-young, Lee Joo-won, Eum Moon-suk, Kim Chan-hyung, Lee Kyu-won, Jeon Jin-oh e Cha Woo-jin ampliam a rede de policiais, criminosos, vítimas e intermediários. Essa abundância de personagens é típica de produções policiais coreanas que tratam a investigação como movimento coletivo, mesmo quando um astro concentra as cenas mais memoráveis.

A reformulação do elenco também refletiu circunstâncias externas. Hong Ki-joon, que interpretara o policial Park Byung-sik, não participou da continuação após se envolver, em 2020, em um caso de direção sob efeito de álcool. Na Coreia do Sul, controvérsias desse tipo costumam provocar consequências rápidas na carreira de artistas, especialmente quando afetam a percepção pública de responsabilidade. Já Nam Moon-chul aparece como Choi Choon-baek em seu último trabalho para o cinema. O ator morreu em 4 de outubro de 2021, durante tratamento contra um câncer colorretal, antes da estreia do filme.

O exterior amplia o mapa, mas não apaga a identidade coreana

A presença do Vietnã como espaço da ação não transforma 《The Roundup》 em uma aventura genérica de espionagem internacional. O centro continua sendo a equipe ligada à Delegacia de Geumcheon, distrito de Seul que fornece à série sua identidade institucional. Em vez de substituir os policiais locais por grandes agências globais, o roteiro leva a lógica de uma delegacia de bairro para um ambiente estrangeiro. É justamente desse deslocamento que surgem parte da tensão e do humor.

O uso de cenários vietnamitas, também associados à produção de 《Deliver Us from Evil》, acompanha uma tendência de expansão geográfica do cinema comercial sul-coreano. À medida que seus filmes ganham circulação internacional, histórias antes concentradas em Seul ou em outras cidades do país passam a incorporar redes criminosas, comunidades coreanas no exterior e operações transnacionais. Isso aumenta a escala visual e comercial sem necessariamente abandonar códigos culturais reconhecíveis pelo público doméstico.

No caso de 《The Roundup》, o exterior também oferece uma solução estratégica para o problema clássico das sequências: como tornar o mundo maior sem descaracterizá-lo. O filme muda o território, o antagonista e parte da composição da equipe, mas mantém Ma Seok-do como ponto de estabilidade. A fórmula é simples e eficiente. O espectador sabe que encontrará perseguições, confrontos físicos e piadas construídas em torno da diferença entre a aparência ameaçadora do protagonista e sua função de policial. O elemento desconhecido está em como esse repertório funcionará diante de outro criminoso e fora da zona habitual de atuação.

Essa combinação de repetição e variação explica por que a produção pode ser entendida menos como um êxito isolado e mais como um momento de consolidação industrial. Franquias dependem de uma promessa reconhecível, mas também de mudanças suficientes para evitar desgaste. Ao trocar o diretor, introduzir um vilão de forte presença e redistribuir as funções dos coadjuvantes, a continuação estabeleceu um modelo capaz de ser reproduzido em novos capítulos.

Bilheteria acompanhada por reconhecimento artístico

O sucesso popular não ficou separado da recepção profissional. No Festival de Cinema Chunsa de 2022, Park Ji-hwan recebeu o prêmio de melhor ator coadjuvante, Lee Sang-yong foi reconhecido como diretor estreante e o filme venceu a categoria de produção mais popular escolhida pelo público. Na premiação da Associação Coreana de Críticos de Cinema, Son Suk-ku ganhou como novo ator, e o longa foi incluído na seleção dos dez melhores do ano.

Outras cerimônias destacaram áreas técnicas que muitas vezes ficam em segundo plano quando se fala de filmes de ação. No Blue Dragon Film Awards, uma das premiações mais conhecidas do cinema sul-coreano, Lee Sang-yong recebeu o reconhecimento ligado ao filme coreano de maior público, e a equipe de ação, representada por Heo Myung-haeng e outro profissional, conquistou o prêmio técnico. No Grand Bell Awards, Ju Sung-lim venceu por fotografia, Kim Sun-min por edição e Park Ji-hwan recebeu o prêmio popular na categoria masculina.

Esses resultados ajudam a explicar por que a ação funciona além do carisma do protagonista. Cenas de luta dependem de coreografia, posicionamento de câmera, ritmo de montagem e clareza espacial. Quando esses elementos falham, o espectador perde a noção de risco ou se cansa da repetição. Em 《The Roundup》, o impacto dos golpes de Ma Seok-do é parte da identidade do filme, mas essa sensação é produzida por um trabalho coletivo que inclui preparação física, desenho de som, fotografia e edição.

O reconhecimento simultâneo de atores, diretor e departamentos técnicos indica que a obra encontrou equilíbrio entre espetáculo comercial e execução profissional. Não se trata de afirmar que toda produção de grande bilheteria necessariamente alcança excelência artística, mas de observar que, neste caso, a popularidade foi acompanhada por prêmios em campos distintos. A indústria recebeu o filme não apenas como um campeão de ingressos, mas como uma produção capaz de organizar com competência os recursos do gênero.

O que esse fenômeno significa para o Brasil

Para o público brasileiro, 《The Roundup》 ajuda a ampliar a imagem da cultura pop sul-coreana para além do K-pop, dos dramas românticos e das séries distribuídas por plataformas digitais. A Coreia do Sul possui uma tradição robusta de thrillers, histórias policiais e filmes de vingança, mas parte dos espectadores no Brasil ainda chega ao audiovisual coreano por produções seriadas ou por títulos premiados em festivais. Uma franquia de ação popular revela outro segmento dessa indústria: o cinema feito para grandes plateias domésticas, sustentado por estrelas reconhecíveis e personagens recorrentes.

A comparação com o Brasil exige cautela. Os dois mercados têm populações, redes de exibição e hábitos de consumo diferentes, e não há nos dados apresentados base para afirmar um efeito comercial específico sobre salas ou empresas brasileiras. Ainda assim, o conceito coreano de filme com 10 milhões de espectadores oferece uma referência útil. No Brasil, também reconhecemos a diferença entre um sucesso restrito a determinado público e uma obra capaz de atravessar regiões, classes sociais e perfis de consumo. Na Coreia, a marca dos dez milhões comunica justamente essa passagem para o imaginário coletivo.

Para distribuidores, exibidores e plataformas que atuam no mercado brasileiro, o caso demonstra o valor de apresentar o cinema coreano como uma produção diversificada, e não como um gênero único. O espectador atraído por um drama televisivo pode não ser o mesmo interessado em uma comédia policial violenta; da mesma forma, fãs de filmes de ação podem conhecer Ma Dong-seok sem acompanhar ídolos musicais ou romances coreanos. Segmentar essa audiência com precisão é mais promissor do que tratar toda obra sul-coreana como parte de uma única onda cultural.

A figura de Ma Dong-seok também tem potencial de comunicação com brasileiros acostumados a heróis de ação de presença física marcante. A diferença está na forma como a série combina esse arquétipo com a dinâmica hierárquica de uma delegacia coreana e com um humor baseado em constrangimento, respeito profissional e mudanças bruscas de tom. Explicar esses códigos culturais, em vez de apagá-los na divulgação, pode aproximar o público. A familiaridade vem da ação; a novidade, das relações sociais e institucionais que organizam os personagens.

Do ponto de vista das relações culturais entre Brasil e Coreia do Sul, o fenômeno reforça uma via de intercâmbio que não depende apenas de eventos oficiais ou de grandes marcas. Filmes, séries e música criam referências compartilhadas e despertam interesse por idioma, turismo, gastronomia e história. Não é possível atribuir a 《The Roundup》, isoladamente, um impacto mensurável sobre essa relação. Seu valor está em integrar um catálogo mais amplo de obras que tornam a sociedade coreana menos distante para o público brasileiro.

A sequência que transformou um filme em franquia

Depois da carreira nos cinemas, 《The Roundup》 chegou ao mercado de vídeo sob demanda em 23 de julho de 2022. A expansão da série continuou com 《The Roundup: No Way Out》, terceiro filme, lançado na Coreia do Sul em 31 de maio de 2023. Após a conclusão das filmagens desse capítulo, imagens promocionais foram divulgadas e a produção avançou para o quarto longa. A velocidade desse processo mostra que o segundo filme funcionou como uma ponte industrial: confirmou a viabilidade da marca e permitiu planejar novos títulos em sequência.

Esse talvez seja seu legado mais importante. O primeiro longa apresentou o personagem e estabeleceu o tom. O segundo demonstrou que Ma Seok-do podia enfrentar outra ameaça, em outro espaço e sob outra direção, sem perder a conexão com o público. Uma franquia nasce de verdade quando sobrevive à novidade inicial e transforma sua estrutura em uma promessa repetível. 《The Roundup》 realizou essa transição ao manter o herói, renovar o antagonista e ampliar o território.

O que deve ser observado nos capítulos seguintes é a capacidade de sustentar esse equilíbrio. A força excepcional de Ma Seok-do é um atrativo, mas pode reduzir a tensão se os adversários parecerem incapazes de ameaçá-lo. Os coadjuvantes oferecem humor e continuidade, mas precisam evoluir para não se tornarem apenas peças fixas. A expansão internacional aumenta o espetáculo, porém corre o risco de converter ambientes estrangeiros em simples decoração. O futuro da série depende de encontrar variações sem abandonar o núcleo que a tornou popular.

Vista em retrospecto, a marca de 10 milhões de espectadores é menos um ponto final do que a confirmação de uma mudança. 《The Roundup》 mostrou que uma continuação poderia assumir nova direção, trocar seu principal vilão, reorganizar a equipe policial e sair das fronteiras sul-coreanas mantendo uma identidade reconhecível. O recorde de público, os prêmios de atuação e os reconhecimentos em fotografia, edição e técnica registram dimensões diferentes do mesmo êxito. Para quem acompanha a crescente presença da cultura coreana no Brasil, o filme é uma porta de entrada para compreender não só um herói de ação, mas também a maneira como a indústria sul-coreana constrói, testa e expande suas franquias populares.

Source: Original Korean article - Trendy News Korea

Comentários