Documentário sobre Gaza expõe denúncias de uso de IA em ataques e põe responsabilidade humana no centro do debate

Imagem para ajudar a entender a matéria
Uma investigação sobre o que existe por trás dos alvos
O que acontece quando uma operação militar transforma pessoas, casas e famílias em informações processadas por um sistema de seleção de alvos? Essa é a questão central de NAZA, documentário que reúne depoimentos de integrantes das estruturas militares e de inteligência de Israel sobre ações na Faixa de Gaza. Mais do que registrar a destruição, a proposta é investigar os procedimentos que, segundo essas testemunhas, permitiram ataques com mortes de civis palestinos.
De acordo com o relato jornalístico em coreano que serve de base a esta reportagem, o filme recebeu o Prêmio Especial do Júri da 83ª edição do Festival de Veneza, em uma cerimônia realizada no dia 12. O material, porém, não informa o mês nem o ano do evento, e a premiação não foi verificada de forma independente para este texto. As informações sobre o reconhecimento e a recepção do documentário devem ser entendidas com essa ressalva.
Dirigido pelos israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, o longa desloca a atenção das imagens dos bombardeios para o funcionamento das instituições que os tornam possíveis. Para o público brasileiro, a discussão ultrapassa a distância geográfica: envolve proteção de civis, transparência do Estado e os limites da inteligência artificial quando suas recomendações podem produzir consequências irreversíveis.
O festival como espaço de repercussão, não de comprovação
Segundo o texto de origem, que atribui parte das informações à agência AFP, NAZA tem 80 minutos e era o único documentário na competição principal. Após uma sessão oficial no dia 10, teria recebido 25 minutos de aplausos em pé. A repercussão levou alguns críticos e veículos a apontá-lo como candidato ao Leão de Ouro, o principal troféu de Veneza.
É importante distinguir as categorias: o Prêmio Especial do Júri não é o Leão de Ouro. Também é necessário separar o entusiasmo de uma plateia da avaliação das evidências apresentadas. A duração dos aplausos pode indicar mobilização e interesse, mas não substitui a checagem jornalística nem constitui uma conclusão judicial sobre os acontecimentos retratados.
O peso de um grande festival está na capacidade de ampliar a circulação de uma obra. Uma investigação antes acompanhada por leitores de determinados veículos pode chegar a distribuidores, programadores de cinema e novos públicos. Isso não garante lançamento comercial, disponibilidade em plataformas ou exibição no Brasil. O material fornecido não apresenta informações sobre esses próximos passos.
Vinte e quatro testemunhas e o desafio do anonimato
O núcleo do documentário, segundo a reportagem, são os depoimentos anônimos de 24 pessoas ligadas às Forças Armadas e à inteligência de Israel. Elas teriam participado de atividades como vigilância de palestinos e operações de ataque à distância. A opção por ouvir integrantes dessas estruturas busca revelar aspectos das decisões militares que não aparecem necessariamente nos comunicados oficiais.
Os realizadores afirmam ter levado três anos para convencer fontes a compartilhar informações internas. Rostos e vozes foram alterados para proteger as identidades, e o conteúdo do filme teria permanecido sob sigilo até a sessão oficial. São medidas que mostram a sensibilidade do trabalho, embora a proteção das fontes não dispense o exame da consistência dos relatos.
O anonimato cria um desafio conhecido do jornalismo investigativo: pode ser indispensável para evitar represálias, mas impede o público de verificar diretamente quem fala e quais funções desempenhava. Por isso, ganha importância a existência de documentos, registros e testemunhos convergentes. O resumo disponível não permite avaliar, caso a caso, quais elementos sustentam cada acusação apresentada no filme.
Também não há, no material fornecido, uma resposta das autoridades israelenses às denúncias específicas de NAZA. Essa ausência precisa ser explicitada, sem ser interpretada como confirmação dos depoimentos. Uma cobertura continuada deve buscar a manifestação das instituições citadas e acompanhar eventuais contestações, apurações e novos documentos.
Inteligência artificial não elimina decisões humanas
Uma das denúncias centrais envolve sistemas de inteligência artificial utilizados para identificar supostos integrantes de baixo escalão do Hamas. De acordo com os testemunhos descritos na reportagem, informações produzidas por essas ferramentas eram usadas para orientar ataques às residências dessas pessoas durante a madrugada. Os depoentes afirmam que havia conhecimento de que familiares também poderiam morrer.
Alguns entrevistados compararam a experiência a trabalhar em uma fábrica de matar ou a participar de um videogame de assassinatos. Essas expressões são descrições atribuídas às fontes, não definições técnicas dos sistemas. Seu significado está no modo como os participantes apresentam a distância entre a rotina operacional e as consequências humanas das ações.
A questão não se resume a perguntar se um algoritmo funciona bem. É necessário saber quais dados alimentam o sistema, como uma pessoa passa a ser classificada como suspeita, quais erros são tolerados e quem autoriza um ataque. Mesmo uma ferramenta capaz de identificar corretamente determinado indivíduo não resolve, por si só, questões sobre presença de civis e legalidade do uso da força.
Da mesma forma, a expressão inteligência artificial não explica todo o processo decisório. Pessoas e instituições escolhem objetivos, estabelecem critérios, definem procedimentos de revisão e decidem como utilizar os resultados. A tecnologia pode modificar a velocidade e a escala de uma operação, mas isso não significa que a responsabilidade desapareça dentro do software.
O resumo não traz documentação técnica suficiente para determinar o grau de autonomia das ferramentas retratadas. Portanto, seria incorreto concluir que máquinas escolhiam e executavam ataques inteiramente sozinhas. O ponto sustentado pelo relato é outro: os entrevistados descrevem sistemas de apoio à identificação de alvos inseridos em uma estrutura militar comandada por seres humanos.
O nome do filme e a linguagem da guerra
Segundo a reportagem, NAZA deriva de uma sigla usada no meio militar israelense para designar civis cuja morte era prevista em uma operação. O texto não informa a expressão original por extenso nem oferece uma explicação linguística detalhada. Ainda assim, o significado atribuído ao título ajuda a entender o foco dos realizadores: a transformação de possíveis vítimas em uma categoria de planejamento.
A discussão é sobre mais do que vocabulário. Termos administrativos podem facilitar a comunicação interna, mas também afastar uma decisão de suas consequências concretas. Para o espectador, o desafio proposto pelo documentário é reconstruir essa ligação: por trás de estimativas e classificações existem pessoas que não participam diretamente dos combates.
O filme também reúne, conforme o resumo, testemunhos sobre a destruição de áreas ainda habitadas e sobre mortes de civis em locais de distribuição de ajuda humanitária. São acusações distintas, que precisam ser examinadas individualmente. Não é possível presumir que todas envolveram a mesma ferramenta tecnológica ou o mesmo procedimento operacional.
No direito internacional humanitário, a proteção de civis envolve princípios como distinção, proporcionalidade e precaução. A presença de um possível alvo militar não autoriza qualquer forma de ataque. Ao mesmo tempo, determinar a responsabilidade por um episódio específico exige examinar suas circunstâncias e evidências; um documentário pode contribuir para esse debate, mas não substitui uma investigação independente.
Do jornalismo investigativo à linguagem do cinema
A produção se apoia, segundo o material de origem, em reportagens publicadas entre 2023 e 2025 pela revista israelense-palestina +972 Magazine, pelo veículo em hebraico Local Call e pelo jornal britânico The Guardian. Esse percurso ajuda a compreender o filme como uma nova etapa de circulação de denúncias, e não apenas como uma descoberta apresentada pela primeira vez em um festival.
A passagem para o cinema permite organizar informações dispersas e dar espaço à experiência de quem participou dos acontecimentos. Também introduz escolhas de montagem, duração e narrativa. O público deve considerar as duas dimensões: o documentário pode tornar uma investigação mais acessível, mas continua sendo uma obra construída a partir de decisões editoriais.
O relato aponta o Guardian e James Wilson, da JW Films, na produção, e o cineasta Jonathan Glazer como produtor executivo. Glazer dirigiu A Zona de Interesse, ficção que aborda a convivência entre a vida doméstica de uma família nazista e o extermínio em Auschwitz. Sua participação em NAZA pode despertar interesse por discussões sobre indiferença e responsabilidade, sem tornar os contextos históricos equivalentes.
Abraham e Szor também integraram, ao lado dos palestinos Basel Adra e Hamdan Ballal, a direção de No Other Land, vencedor do Oscar de documentário em 2025. A experiência anterior ajuda a situar a colaboração entre realizadores israelenses e palestinos e a continuidade de um trabalho voltado às condições de vida da população palestina.
Para os diretores, o público israelense é essencial
Em declaração atribuída à cerimônia de premiação, Abraham afirmou que pelo menos seis crianças palestinas haviam sido mortas por Israel em Gaza nos dez dias transcorridos desde a abertura do festival. O número aparece no material como uma afirmação do diretor e não vem acompanhado de documentação que permita verificá-lo neste texto.
O cineasta sustentou que os entrevistados descreveram mortes produzidas de maneira sistemática e planejada, apoiadas na desumanização dos palestinos. Também destacou a importância de o filme ser visto em Israel, por tratar de ações praticadas por instituições de seu próprio país. Essa intenção diferencia a busca de reconhecimento internacional do esforço de intervir no debate doméstico.
Na entrevista coletiva mencionada pela reportagem, Abraham disse que a pergunta inicial às fontes era simples: explicar o trabalho que haviam realizado. Segundo ele, alguns participantes demonstravam arrependimento, enquanto outros não. Essa diferença impede tratar os 24 entrevistados como um grupo movido pelas mesmas razões e reforça a necessidade de contextualizar cada depoimento.
O diretor também relatou que alguns entrevistados haviam trabalhado em uma unidade secreta ligada diretamente ao gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Um deles teria descrito sua missão como impedir a paz. É uma alegação especialmente grave, apresentada por meio do relato do cineasta, e que exige apuração própria antes de qualquer conclusão sobre objetivos institucionais.
O que essa discussão significa para o Brasil
Para o público brasileiro, a conexão mais imediata é o papel do documentário na formação do debate político. Democracia em Vertigem, de Petra Costa, indicado ao Oscar em 2020, é um exemplo conhecido de como uma obra brasileira pode alcançar espectadores internacionais e provocar disputas sobre interpretação, evidências e ponto de vista. A comparação diz respeito à circulação do cinema político, não à equivalência entre os acontecimentos retratados.
NAZA também oferece uma referência para discutir a responsabilidade pelo uso de ferramentas automatizadas. No Brasil, debates sobre inteligência artificial e reconhecimento facial igualmente exigem perguntas sobre qualidade dos dados, possibilidade de erro, fiscalização e contestação. Isso não torna aplicações civis ou policiais idênticas a operações militares em Gaza; aproxima, de forma limitada, problemas de transparência e prestação de contas.
Uma eventual chegada do filme aos cinemas, festivais ou serviços digitais brasileiros permitiria acompanhar diretamente a construção dos depoimentos e das acusações. Por enquanto, o material não identifica distribuidora, plataforma, data de estreia ou aquisição de direitos no país. Não há base para estimar bilheteria, impacto econômico ou acordos com empresas brasileiras.
A origem coreana da reportagem tampouco demonstra participação sul-coreana na produção ou uma conexão comercial com o Brasil. O que ela evidencia é a circulação internacional dessa pauta. Para leitores brasileiros interessados na Coreia do Sul, vale distinguir o país de onde vem a cobertura do país de origem da obra: neste caso, o assunto atravessa diferentes espaços jornalísticos sem se tornar uma produção coreana.
O que acompanhar além da repercussão
Os próximos pontos de atenção são a confirmação dos dados de exibição e premiação, a disponibilidade pública do filme, as respostas das instituições acusadas e a eventual apresentação de novos elementos verificáveis. Também será importante observar como os realizadores explicam seus procedimentos de checagem, preservando a segurança de quem prestou depoimento.
O interesse mais duradouro da história está no encontro entre investigação jornalística, testemunho interno e tecnologias de guerra. Quando sistemas computacionais passam a integrar decisões potencialmente letais, a discussão pública precisa alcançar tanto seu funcionamento quanto as ordens e escolhas que os cercam. A pergunta central não é apenas o que a inteligência artificial consegue fazer, mas quem decide usá-la, sob quais limites e com que responsabilidade pelas consequências.
Comentários
Postar um comentário