Gangwon amplia aposta em data centers de inteligência artificial e negocia projetos com KT e Shinsegae

Gangwon amplia aposta em data centers de inteligência artificial e negocia projetos com KT e Shinsegae

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Província sul-coreana tenta transformar infraestrutura de IA em estratégia regional

A província de Gangwon, no nordeste da Coreia do Sul, quer ocupar um espaço mais relevante na corrida pela infraestrutura necessária ao avanço da inteligência artificial. O governador Woo Sang-ho informou que o governo provincial mantém conversas com a operadora de telecomunicações KT para a construção de um data center de IA em Wonju e acompanha uma possível iniciativa do grupo Shinsegae em Chuncheon. Os dois projetos ainda estão em fase de negociação e não podem ser tratados como investimentos confirmados.

A cautela é importante porque anúncios envolvendo data centers costumam reunir cifras elevadas, negociações fundiárias, contratos de fornecimento de energia e compromissos de longo prazo. Woo procurou separar explicitamente o interesse empresarial de uma decisão definitiva. Segundo ele, novos detalhes serão divulgados apenas quando houver avanços concretos. Na prática, a viabilidade dependerá das condições oferecidas, das regras para escolher as empresas participantes e do formato de cooperação entre o poder público e os grupos privados.

Mesmo sem contratos concluídos, a movimentação revela uma mudança de escala na política econômica de Gangwon. A província já promove projetos ligados a data centers de inteligência artificial com o grupo GS em Donghae e com o conglomerado SK em Gangneung. Caso as conversas de Wonju e Chuncheon prosperem, quatro cidades poderão integrar uma rede descentralizada de instalações digitais. Em vez de concentrar todos os recursos em um único megaprojeto, o governo local tenta combinar vocações municipais, disponibilidade de terrenos, energia, parceiros corporativos e mecanismos de desenvolvimento regional.

Gangwon é conhecida dentro e fora da Coreia sobretudo por suas montanhas, estações de esqui, cidades costeiras e pelo legado dos Jogos Olímpicos de Inverno de PyeongChang, realizados em 2018. O plano de atrair data centers busca acrescentar uma identidade tecnológica a essa imagem turística. É uma tentativa de levar parte da economia digital para além da região metropolitana de Seul, onde se concentram empresas, universidades, mão de obra qualificada e grande parcela da atividade econômica sul-coreana.

Por que data centers se tornaram ativos estratégicos

Um data center reúne servidores, equipamentos de rede, sistemas de armazenamento, refrigeração e segurança necessários para processar e movimentar grandes volumes de informação. No caso da inteligência artificial, a demanda é ainda mais intensa. O treinamento e a operação de modelos avançados exigem capacidade computacional, fornecimento estável de eletricidade, conexões rápidas e soluções capazes de controlar o calor produzido pelos equipamentos.

Isso ajuda a explicar por que governos regionais passaram a disputar esses empreendimentos como antes disputavam fábricas de automóveis, refinarias ou grandes centros logísticos. A infraestrutura digital deixou de ser apenas um suporte invisível para aplicativos. Ela passou a ser considerada parte crítica da política industrial, da soberania tecnológica e da capacidade de empresas e governos desenvolverem serviços baseados em dados.

Ao mesmo tempo, a chegada de um data center não garante, por si só, uma transformação econômica profunda. Essas instalações podem mobilizar muitos trabalhadores durante a construção, mas sua operação tende a ser altamente automatizada e especializada. O impacto local depende de fatores como contratação de fornecedores, formação profissional, criação de centros de pesquisa, conexão com universidades e presença de empresas capazes de oferecer software, manutenção, segurança cibernética, componentes e serviços técnicos.

É justamente nesse ponto que Gangwon tenta diferenciar sua proposta. O governo provincial afirma que não quer apenas oferecer terrenos para grandes grupos instalarem prédios cheios de servidores. A intenção declarada é aproximar as empresas responsáveis pelos data centers das pequenas e médias companhias locais, criar caminhos para a contratação de moradores e estimular investimentos posteriores de subsidiárias e fornecedores. Trata-se de uma ambição mais ampla: converter infraestrutura física em um ecossistema econômico.

Essa distinção também serve de alerta contra expectativas exageradas. Até o momento, parcerias com negócios regionais, programas de emprego e aportes complementares são objetivos apresentados pelo governo, não resultados comprovados. A efetividade da estratégia só poderá ser medida quando os contratos mostrarem quais obrigações serão assumidas pelas companhias, quantos fornecedores locais poderão participar e que tipos de postos de trabalho serão criados.

KT, Shinsegae e a lógica dos grandes conglomerados coreanos

A preferência de Gangwon por projetos ligados a grandes empresas nacionais reflete uma característica conhecida da economia sul-coreana: o peso dos conglomerados empresariais. Frequentemente chamados de chaebol, esses grupos reúnem companhias de diferentes setores sob estruturas de controle e relacionamento comuns. Samsung, Hyundai, SK, LG e Lotte estão entre os exemplos mais reconhecidos pelos brasileiros, embora cada grupo tenha organização própria e diferentes áreas de atuação.

A KT é uma das principais empresas de telecomunicações da Coreia do Sul e possui experiência diretamente relacionada a redes e serviços digitais. Sua participação em Wonju, se confirmada, seria compatível com a crescente integração entre telecomunicações, computação em nuvem e inteligência artificial. A Shinsegae, por outro lado, é mais conhecida por atividades de varejo, lojas de departamento e centros comerciais. O interesse atribuído ao grupo em Chuncheon mostra como a infraestrutura de dados deixou de ser assunto exclusivo das empresas tradicionalmente classificadas como tecnológicas.

Para Gangwon, o nome do investidor importa menos do que a rede econômica que ele pode mobilizar. O governador dividiu os potenciais interessados em três categorias: parcerias entre grandes grupos coreanos e companhias globais de tecnologia, investimentos diretos de empresas estrangeiras e fundos que já tenham clientes internacionais para a capacidade dos data centers. A prioridade, segundo a orientação apresentada, será analisar primeiro projetos que unam conglomerados nacionais e grandes companhias tecnológicas estrangeiras.

Essa escolha não significa fechar as portas ao capital internacional. A lógica é usar uma empresa coreana como ponte entre tecnologia global, fornecedores locais e políticas públicas. Na avaliação provincial, um grande grupo doméstico pode ter mais condições de firmar acordos de cooperação com empresas de Gangwon, recrutar profissionais da região e atrair subsidiárias ou parceiros para novos investimentos.

O modelo também atende a uma preocupação recorrente em cidades que recebem infraestrutura digital: evitar que o território funcione apenas como endereço físico para uma operação controlada de fora. Um empreendimento pode consumir energia, água, solo e capacidade de transmissão sem necessariamente gerar uma cadeia produtiva proporcional no entorno. Ao exigir vínculos econômicos mais amplos, Gangwon tenta aumentar a parcela do valor que permanece na província. A dificuldade será transformar essa intenção em critérios objetivos e compromissos verificáveis.

Chuncheon aposta em energia da água, mas enfrenta obstáculo regulatório

O possível investimento da Shinsegae está associado ao complexo de convergência de energia hidrotérmica de Chuncheon. O conceito pode soar pouco familiar ao leitor brasileiro. Em linhas gerais, instalações desse tipo aproveitam a temperatura da água como parte de sistemas de troca térmica, reduzindo ou reorganizando o uso de energia necessário para aquecimento e refrigeração. Para data centers, que geram grande quantidade de calor durante a operação, qualquer solução eficiente de resfriamento pode ter peso decisivo na escolha de um local.

A discussão sobre refrigeração ganhou importância com a expansão da inteligência artificial. Equipamentos de alto desempenho concentram enorme capacidade de processamento e liberam mais calor, o que pressiona sistemas tradicionais baseados em ar-condicionado. Empresas de energia e tecnologia estudam alternativas como resfriamento líquido, reaproveitamento de calor e integração com fontes térmicas disponíveis no ambiente. Chuncheon busca apresentar seu complexo como uma vantagem competitiva nesse novo cenário.

O principal impasse, porém, não é apenas tecnológico. Segundo o governo de Gangwon, uma norma do Ministério da Terra, Infraestrutura e Transportes prevê sorteio quando mais de uma empresa deseja ocupar o espaço. Para projetos menores e padronizados, um procedimento aleatório pode ser visto como forma de impessoalidade. Para um grande conglomerado que precisa avaliar custos, aprovar orçamento e organizar uma decisão de vários anos, a falta de previsibilidade pode desestimular o investimento.

A província pediu ao governo central uma mudança que permita selecionar a proposta mais vantajosa por meio de análise. Isso abriria espaço para comparar não somente o volume financeiro, mas também contratação local, parceria com empresas regionais, formação de profissionais e possibilidade de investimentos adicionais. A alteração, no entanto, continua em discussão. Não houve mudança confirmada na regra nem escolha formal da Shinsegae como ocupante.

O episódio mostra que a competição por infraestrutura de IA não se resume à oferta de terreno barato. Governos precisam conciliar transparência, concorrência, segurança jurídica e capacidade de negociar contrapartidas. Uma seleção totalmente discricionária pode gerar questionamentos sobre favorecimento. Um sorteio rígido, por outro lado, pode impedir que o poder público diferencie propostas com impactos econômicos muito distintos. Encontrar um mecanismo previsível e auditável será uma das condições para o plano de Chuncheon avançar.

Descentralização tecnológica e disputa entre regiões sul-coreanas

A iniciativa de Gangwon deve ser compreendida dentro de um desafio estrutural da Coreia do Sul: a forte concentração populacional e econômica na área de Seul. A capital, a cidade portuária de Incheon e a província de Gyeonggi formam uma gigantesca região metropolitana. Para outras províncias, atrair setores de alto valor agregado tornou-se uma ferramenta para conter a perda de jovens, ampliar a arrecadação e diversificar economias dependentes de turismo, agricultura ou indústrias tradicionais.

Data centers oferecem uma oportunidade, mas também impõem limites. Eles precisam de energia abundante e confiável, redes de telecomunicações robustas, disponibilidade de água ou tecnologias alternativas de resfriamento e proteção contra riscos físicos. Também podem enfrentar resistência de comunidades preocupadas com consumo de recursos, impacto ambiental e retorno social reduzido. Por isso, a distribuição dessas instalações pelo território precisa estar ligada ao planejamento energético e urbano, não apenas a campanhas de atração de investimentos.

No desenho de Gangwon, Wonju, Chuncheon, Donghae e Gangneung cumpririam papéis complementares. Wonju é um importante polo urbano da província e tem acesso relativamente favorável à região da capital. Chuncheon, sede administrativa provincial, aposta no complexo de energia hidrotérmica. Donghae e Gangneung, localizadas na costa leste, entram no mapa por meio das iniciativas associadas a GS e SK. Ainda não está claro como os quatro projetos poderão se conectar em termos de redes, especialização e clientes.

O avanço de uma rede regional dependerá ainda da demanda real por capacidade computacional. O entusiasmo global com a inteligência artificial impulsiona projeções de crescimento, mas empreendimentos desse porte exigem contratos duradouros e clientes capazes de ocupar os servidores. Fundos ou empresas podem anunciar intenção de investir antes de assegurar usuários finais, energia e equipamentos. A decisão de Gangwon de observar se o investidor já possui demanda internacional indica preocupação com esse risco.

Mais do que contabilizar quantos centros serão construídos, será necessário acompanhar a qualidade de cada projeto. Entre os indicadores relevantes estão o volume e a origem da eletricidade, a eficiência dos sistemas de resfriamento, a quantidade de empregos permanentes, os acordos com instituições de ensino, a participação de fornecedores regionais e a capacidade de atrair operações de software e pesquisa. Sem esses componentes, a província corre o risco de obter grandes instalações, mas poucos efeitos multiplicadores.

O que a estratégia de Gangwon significa para o Brasil

Não há, nas informações divulgadas, participação anunciada de empresas brasileiras nem impacto imediato sobre investimentos no Brasil. Ainda assim, o caso oferece referências úteis para um país que também busca ampliar sua infraestrutura digital e transformar vantagens energéticas e territoriais em oportunidades ligadas à inteligência artificial.

Brasil e Coreia do Sul mantêm relações econômicas marcadas pela presença de grandes grupos coreanos no mercado brasileiro, especialmente em eletrônicos, automóveis e outros segmentos industriais. Marcas como Samsung, LG e Hyundai fazem parte do cotidiano do consumidor brasileiro. O movimento em Gangwon ajuda a mostrar como a política industrial coreana tenta combinar grandes conglomerados, governos locais e fornecedores de menor porte. Para o Brasil, a experiência é relevante menos como um modelo a copiar e mais como exemplo das perguntas que precisam ser feitas antes de conceder incentivos a grandes projetos tecnológicos.

Uma delas é o efeito sobre o emprego. Assim como ocorre com centros logísticos altamente automatizados no Brasil, um data center pode representar investimento elevado sem criar, na operação diária, número equivalente de vagas. Governos estaduais e municipais brasileiros interessados nesse mercado precisam avaliar a qualidade dos empregos, os programas de capacitação e a possibilidade de conectar o empreendimento a universidades, institutos federais, startups e prestadores de serviços locais.

Outra questão é a energia. O Brasil pode despertar interesse de operadores digitais por sua matriz elétrica com participação relevante de fontes renováveis e pela disponibilidade de áreas em diferentes regiões. Isso não elimina disputas por capacidade de transmissão, estabilidade do fornecimento e uso de recursos hídricos. O debate coreano sobre refrigeração e eficiência energética tem aplicação direta ao contexto brasileiro, sobretudo em áreas quentes ou sujeitas a períodos de seca. Projetos anunciados como sustentáveis precisam apresentar dados verificáveis sobre consumo, origem da energia e impacto ambiental.

Também há uma lição institucional. Gangwon quer substituir ou ajustar um sistema de sorteio para avaliar propostas com base em benefícios mais amplos. No Brasil, processos de concessão de incentivos e escolha de áreas públicas frequentemente provocam discussões sobre transparência e contrapartidas. Um bom desenho deve permitir a comparação qualitativa dos projetos sem abrir espaço para decisões arbitrárias. Critérios públicos, metas mensuráveis e mecanismos de fiscalização são essenciais para impedir que promessas genéricas de inovação justifiquem benefícios sem retorno proporcional.

Para empresas brasileiras de tecnologia, refrigeração, engenharia, energia e serviços de nuvem, a expansão global de data centers cria oportunidades indiretas, mas o anúncio em Gangwon não estabelece uma conexão comercial específica. O que pode ser observado é a tendência de formação de cadeias que combinam construção civil especializada, equipamentos elétricos, software, cibersegurança e gestão energética. Companhias brasileiras que pretendam participar desse mercado precisarão demonstrar capacidade técnica, padrões de segurança e eficiência compatíveis com operações internacionais.

Os consumidores brasileiros, por sua vez, tendem a perceber essa corrida apenas pelos serviços finais: ferramentas de IA, comércio eletrônico, streaming, aplicativos bancários e plataformas corporativas. Por trás dessas experiências existe uma infraestrutura física cada vez mais cara e disputada. A estratégia de Gangwon reforça que a chamada nuvem não é abstrata. Ela depende de prédios, cabos, eletricidade, água, trabalhadores e decisões regulatórias tomadas em territórios concretos.

O que acompanhar nos próximos meses

O primeiro ponto será a evolução das negociações com KT e Shinsegae. O governo provincial confirmou conversas e avaliações, não decisões finais. Um anúncio definitivo exigiria informações sobre localização, cronograma, capacidade, investimento, fornecimento energético e responsabilidades de cada parte. Até que esses elementos sejam apresentados, os projetos de Wonju e Chuncheon devem ser vistos como possibilidades.

O segundo ponto é a situação das iniciativas já promovidas com GS em Donghae e SK em Gangneung. Será importante verificar se elas avançam de forma coordenada ou como empreendimentos independentes. Uma estratégia regional só ganhará consistência se houver complementaridade entre instalações, planejamento de rede, formação de mão de obra e políticas para fornecedores.

O terceiro é a negociação regulatória envolvendo o complexo de Chuncheon. A eventual substituição do sorteio por uma seleção baseada em propostas poderá aumentar a previsibilidade para os investidores, mas precisará vir acompanhada de regras claras. O modo como a Coreia do Sul resolver essa tensão entre neutralidade do processo e busca pelo melhor impacto econômico poderá influenciar outros projetos regionais.

Por fim, será necessário verificar se o discurso de cooperação local chega aos contratos. A promessa de integrar pequenas e médias empresas, empregar moradores e estimular novos aportes é o aspecto mais ambicioso do plano. Também é o mais difícil de cumprir. Construir um data center é uma tarefa de engenharia e financiamento; criar ao redor dele um polo de inovação exige educação, pesquisa, empreendedorismo, demanda empresarial e continuidade política.

Gangwon ainda não apresentou um mapa concluído da inteligência artificial. O que surgiu foi uma proposta de método: distribuir instalações por diferentes cidades, aproximar capital estrangeiro e conglomerados coreanos e condicionar a atração de investimentos à formação de vínculos com a economia regional. Se os projetos forem confirmados e as contrapartidas saírem do papel, a província poderá transformar uma corrida por servidores em uma política de desenvolvimento. Se isso não ocorrer, restará apenas mais uma disputa por grandes prédios tecnológicos, com benefícios locais menores do que os anúncios sugerem.

Source: Original Korean article - Trendy News Korea

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