Sejong e a revolução da escrita: como um rei do século 15 mudou a relação dos coreanos com o conhecimento

Sejong e a revolução da escrita: como um rei do século 15 mudou a relação dos coreanos com o conhecimento

Imagem para ajudar a entender a matéria

Uma herança que chega ao Brasil pelas telas

Antes de aparecer em letras de K-pop, legendas de séries e embalagens de produtos que circulam entre consumidores brasileiros, a escrita coreana nasceu de um problema concreto de governo: como fazer o conhecimento chegar a uma população que falava uma língua, mas dependia de um sistema de escrita difícil de aprender e pouco adaptado a ela? A resposta mais duradoura do rei Sejong, que governou Joseon entre 1418 e 1450, foi criar um novo conjunto de letras. Quase seis séculos depois, essa iniciativa continua no centro da identidade cultural coreana.

Conhecido como Sejong, o Grande, o monarca costuma ser lembrado sobretudo pela criação do alfabeto hoje chamado hangul. Seu projeto, porém, fazia parte de uma agenda mais ampla, que associava pesquisa, agricultura, instrumentos de medição, organização administrativa e fortalecimento do Estado. O objetivo não era apenas produzir conhecimento na corte, mas torná-lo útil à administração e, em diferentes medidas, à vida cotidiana.

Esse legado ganha uma camada adicional de interesse para leitores brasileiros que se aproximam da Coreia do Sul por sua produção cultural. Entender a origem da escrita permite enxergar, por trás do entretenimento contemporâneo, uma disputa histórica sobre quem pode registrar a própria experiência e acessar informações. Também exige cuidado: o soberano associado à ampliação desse acesso governava uma sociedade hierárquica, muito distante das noções atuais de igualdade e cidadania.

O leitor que não era o primeiro na sucessão

Sejong nasceu em 1397, na região da atual Jongno, no centro de Seul. Seu nome pessoal era Yi Do, e ele era o terceiro filho homem de Taejong e da futura rainha Wongyeong. Não estava, portanto, na posição inicialmente reservada ao sucessor. Antes de chegar ao trono, recebeu o título de príncipe Chungnyeong e se destacou pela dedicação aos estudos.

O perfil histórico fornecido sobre o monarca reúne episódios que ajudaram a construir sua imagem de governante erudito. Segundo esse relato, o jovem lia a ponto de prejudicar a própria saúde, levando o pai a mandar esconder seus livros. Também teria cuidado pessoalmente de um irmão mais novo que adoeceu e morreu. São passagens que apresentam as qualidades valorizadas pela corte: disciplina intelectual, respeito aos pais e compromisso com a família.

A sucessão mudou quando o irmão mais velho, o príncipe Yangnyeong, perdeu a condição de herdeiro em 1418. O relato associa a decisão de Taejong a uma sequência de comportamentos considerados inadequados e à pressão de funcionários da corte. Chungnyeong foi então escolhido como novo sucessor e, no mesmo ano, assumiu o trono como quarto rei de Joseon.

A mudança, no entanto, não lhe deu autonomia imediata. Mesmo depois da abdicação, Taejong conservou influência sobre assuntos militares e nomeações. O início do reinado também foi marcado pela repressão a parentes da rainha, incluindo o sogro de Sejong, Sim On. A imagem posterior de um soberano dedicado ao conhecimento não deve apagar esse ambiente de concentração de poder e violência política.

Governar com especialistas, sem dividir todo o poder

Uma característica da administração de Sejong foi distribuir funções de acordo com as capacidades atribuídas a seus auxiliares. Hwang Hui recebeu responsabilidades ligadas a decisões administrativas, militares e de pessoal. Maeng Sa-seong se ocupou de áreas como educação e aperfeiçoamento institucional. Yun Hoe atuou em diplomacia, redação de documentos e atividades relacionadas ao trabalho intelectual da corte. Kim Jong-seo ganhou destaque na defesa.

Essa divisão ajuda a explicar por que o período não pode ser reduzido ao talento de um único homem. O governo dependia de funcionários, estudiosos e técnicos capazes de transformar objetivos políticos em medidas concretas. Sejong também procurava evitar que um auxiliar concentrasse todas as atribuições, repartindo ou compartilhando tarefas importantes.

Parte dessa organização se expressou no sistema em que os assuntos dos seis grandes órgãos administrativos passavam pela deliberação dos principais conselheiros antes de chegar ao rei, com exceções para questões militares e de pessoal. Para um leitor brasileiro, a referência a ministérios e a um conselho de governo ajuda a visualizar o funcionamento, mas a equivalência é apenas aproximada: não havia ali um gabinete submetido às regras de uma democracia contemporânea.

O horizonte político era confucionista. Isso significa que deveres familiares, hierarquia, formação moral e rituais públicos tinham papel central na organização social. O governo publicou obras de orientação ética, organizou arquivos e reformou a tributação agrícola, considerando diferenças na qualidade da terra e nas condições de cada ano. Conhecimento técnico e disciplina moral faziam parte do mesmo projeto de Estado.

A barreira entre falar e conseguir escrever

Na época de Sejong, os caracteres chineses ocupavam posição central na cultura escrita da elite de Joseon. Conhecidos em coreano como hanja, exigiam aprendizado prolongado. Havia formas de utilizá-los para registrar elementos da língua coreana, mas isso não eliminava a distância entre o idioma falado pela população e as práticas letradas dominantes.

Não se tratava simplesmente de pessoas que ainda não haviam frequentado uma escola. O próprio sistema de escrita impunha uma barreira adicional: dominar a fala cotidiana não bastava para conseguir registrá-la com facilidade. A produção de documentos e o acesso a textos dependiam de uma formação disponível de maneira muito desigual.

O relato sobre Sejong liga essa dificuldade à circulação de orientações agrícolas. Publicar um livro com informações úteis tinha alcance limitado se os destinatários não conseguiam compreendê-lo. A questão é familiar também fora da Coreia: entre disponibilizar uma informação e torná-la efetivamente acessível existe uma distância que envolve linguagem, educação e condições materiais.

Em 1420, o rei estabeleceu na corte o Jiphyeonjeon, uma instituição de estudos e pesquisa voltada às necessidades do governo. A valorização de seus estudiosos criou um ambiente de investigação associado à administração. Foi nesse reinado que a escrita deixou de ser apenas uma competência exigida dos funcionários e passou a ser também objeto de uma intervenção direta do soberano.

O que o hangul mudou — e o que não mudou de imediato

Em 1443, Sejong criou um sistema de 28 letras, apresentado publicamente em 1446 com o nome de Hunminjeongeum, expressão geralmente traduzida como sons corretos para a instrução do povo. O nome designa tanto a proposta de escrita quanto a obra que a apresentou. O termo hangul se difundiria muito mais tarde, já na era moderna; não corresponde à criação de um alfabeto inteiramente novo no século 20.

A inovação consistia em oferecer um meio mais acessível de representar os sons do coreano. Em vez de depender do domínio de um repertório extenso de caracteres chineses, o aprendiz podia trabalhar com um conjunto limitado de letras e regras de combinação. O projeto articulava observação dos sons da fala e princípios intelectuais da época, incluindo referências cosmológicas presentes na organização das vogais.

Para quem vê palavras coreanas pela primeira vez, vale uma explicação: embora as letras sejam reunidas visualmente em blocos silábicos, o hangul é um sistema alfabético. Esses blocos não são desenhos independentes que representam, cada um, uma ideia. Eles combinam elementos correspondentes a consoantes e vogais. A disposição gráfica é diferente da sequência linear mais familiar aos brasileiros, mas pode ser aprendida por meio de regras.

A criação não significou alfabetização universal instantânea, nem o desaparecimento imediato do prestígio dos caracteres chineses. Uma ferramenta mais simples pode reduzir obstáculos sem, sozinha, eliminar desigualdades de ensino e poder. Ao longo do tempo, porém, ela ampliou as possibilidades de registrar a língua coreana. Hoje, essa escrita é utilizada tanto na Coreia do Sul quanto na Coreia do Norte, embora existam diferenças de normas e denominação entre os dois países.

Ciência para medir a chuva, o tempo e o céu

O impulso de aproximar conhecimento e necessidades práticas também aparece no apoio de Sejong à ciência. Seu governo mobilizou especialistas como Jeong In-ji, Jeong Cho, Yi Cheon e Jang Yeong-sil na produção de instrumentos astronômicos e de medição do tempo. Relógios solares, relógios de água e equipamentos de observação faziam parte desse esforço.

Em uma sociedade fortemente dependente da agricultura, observar o céu e medir a passagem do tempo não eram atividades separadas da economia. Calendários orientavam tarefas produtivas e rituais; medições ajudavam a organizar informações relevantes para o governo. O apoio à criação do pluviômetro, instrumento destinado a medir a chuva, também se insere nessa relação entre observação e administração.

Jang Yeong-sil tornou-se um exemplo do patrocínio a capacidades técnicas para além das origens sociais mais prestigiadas. Essa abertura merece atenção, mas não deve ser confundida com a superação da estrutura de classes de Joseon. O que o relato permite identificar é a disposição do rei de apoiar determinados talentos apesar de barreiras de nascimento.

Outro resultado foi a compilação do Chiljeongsan, conjunto de cálculos astronômicos elaborado com participação de Yi Sun-ji e Kim Dam. O trabalho recorreu a conhecimentos chineses e a tradições de origem islâmica transmitidas por outras fontes, adaptando cálculos à referência de Seul. A autonomia técnica, nesse caso, não nasceu do isolamento: foi construída pela apropriação e reelaboração de conhecimentos que circulavam entre sociedades.

O limite da imagem de um rei benevolente

A leitura dos feitos de Sejong precisa incluir os custos humanos da ordem política em que ele atuava. Nas relações externas, Joseon mantinha uma posição tributária diante da dinastia Ming, na China. O envio de missões e presentes integrava um sistema diplomático hierárquico, diferente das relações formalmente igualitárias entre Estados que orientam o direito internacional contemporâneo.

Essas trocas podiam trazer retornos materiais, mas algumas exigências impunham encargos graves. O relato registra que 74 mulheres foram enviadas à corte Ming durante o reinado de Sejong. A seleção dessas mulheres para atender à demanda da corte chinesa expõe uma face coercitiva da diplomacia, que não deve ser suavizada como se fosse apenas intercâmbio entre países.

Algumas se tornaram concubinas do imperador e, após a morte dele, foram submetidas ao sacrifício funerário. O tratamento concedido às famílias que permaneceram em Joseon não elimina a violência sofrida por essas mulheres. Incluí-las na história permite enxergar pessoas frequentemente apagadas por narrativas centradas em realizações de governantes.

Em 1430, segundo o perfil, Sejong obteve a dispensa do envio de mulheres, ouro e prata, em troca do aumento de outras entregas, como cavalos, tecidos de seda e ginseng. O episódio mostra um soberano negociando dentro de uma relação desigual. Também revela por que seu legado deve ser analisado por inteiro, sem transformar uma contribuição decisiva à escrita em absolvição automática de todas as práticas de seu tempo.

O que essa história significa para o Brasil

Para o público brasileiro, a conexão mais direta é cultural e educacional. O contato com músicas, séries e outros conteúdos sul-coreanos coloca muitas pessoas diante de uma escrita que pode parecer inicialmente indecifrável. Conhecer sua lógica ajuda a separar língua e alfabeto: aprender a reconhecer as letras é uma etapa; compreender vocabulário, gramática e contexto exige um percurso muito mais longo.

Essa distinção também importa para quem trabalha com tradução, ensino e circulação de produtos culturais. Conseguir ler um nome em hangul não equivale a estar preparado para traduzir uma obra ou interpretar nuances de tratamento entre personagens. A história de Sejong oferece uma porta de entrada para esse aprendizado, mas não sustenta, por si só, previsões sobre expansão de cursos, vendas ou negócios no Brasil.

Há ainda uma comparação útil com o acesso à informação no país. Brasileiros compartilham um alfabeto amplamente difundido, mas documentos públicos, instruções técnicas e textos de serviços podem continuar difíceis de compreender. A barreira é diferente da enfrentada em Joseon, porém a pergunta se aproxima: de que adianta produzir uma orientação se a pessoa que precisa dela não consegue utilizá-la?

Não existe base no material apresentado para atribuir ao legado de Sejong um impacto econômico brasileiro mensurável ou uma iniciativa bilateral específica. A contribuição dessa história ao debate nacional é mais direta e menos grandiosa: lembrar que políticas de educação e comunicação precisam considerar os destinatários. Disponibilizar conteúdo não é o mesmo que garantir compreensão, seja em um manual agrícola do século 15, seja em um serviço público digital no Brasil.

Uma tecnologia de acesso, não uma solução mágica

O fio que aproxima a criação da escrita, os instrumentos científicos e a organização administrativa de Sejong é a tentativa de converter conhecimento em capacidade de ação. Letras permitiam registrar a fala; instrumentos produziam medidas; especialistas transformavam informações em decisões. Cada iniciativa dependia de instituições e pessoas, não apenas da vontade real.

Vista dessa maneira, a importância do reinado ultrapassa a celebração de uma invenção. Ele ajuda a entender uma transformação de longo prazo: a possibilidade de escrever a língua coreana com maior facilidade abriu caminhos que seriam percorridos em contextos políticos e sociais muito posteriores. A cultura sul-coreana que hoje alcança brasileiros utiliza essa herança, mas não pode ser explicada como consequência automática de uma decisão tomada há seis séculos.

Ao acompanhar a presença contemporânea da Coreia no Brasil, vale observar também como cresce o espaço para conhecer sua língua e sua história para além dos produtos de entretenimento. Sejong é um ponto de partida especialmente revelador. Seu legado mostra o poder de uma tecnologia pensada para reduzir obstáculos — e os limites de qualquer inovação quando o acesso ao ensino e ao poder continua desigual.

Source: Original Korean article - Trendy News Korea

Comentários