Hyeonjong, o rei que sobreviveu a conspirações e reconstruiu Goryeo após a guerra

Hyeonjong, o rei que sobreviveu a conspirações e reconstruiu Goryeo após a guerra

Imagem para ajudar a entender a matéria

Uma infância marcada pela tragédia

Hyeonjong, oitavo rei da dinastia Goryeo, nasceu em 992 com o nome de Wang Sun. Seu pai era Wang Uk, filho do fundador da dinastia, e sua mãe, a rainha Heonjeong, era neta do mesmo monarca e havia sido uma das mulheres do rei Gyeongjong.

A relação entre os pais provocou uma crise na corte. Além de não serem formalmente casados, eles eram tio e sobrinha. Quando a gravidez foi descoberta, o rei Seongjong enviou Wang Uk para o exílio em Sasu, região que corresponde à atual cidade de Sacheon. Heonjeong morreu pouco depois do parto, e a criança ficou aos cuidados de uma ama por ordem real.

Um relato preservado nas crônicas afirma que o pequeno Wang Sun, ao encontrar Seongjong no palácio, subiu em seu colo e o chamou de pai. Comovido, o rei teria permitido que o menino fosse viver com Wang Uk no exílio. Ele permaneceu ao lado do pai até a morte deste, em 996, e voltou no ano seguinte para Gaegyeong, capital de Goryeo.

Vida monástica e tentativas de assassinato

Antes de subir ao trono, Wang Sun recebeu o título de príncipe Daeryangwon. Aos 12 anos, porém, tornou-se alvo da disputa pela sucessão. A rainha-mãe Cheonchu e Kim Chi-yang pretendiam colocar no poder o filho que tiveram juntos e enviaram o jovem príncipe ao templo Sunggyosa, onde ele passou a viver como monge, com o nome budista Seonjae.

As ameaças continuaram. Depois que assassinos apareceram repetidamente no templo, Wang Sun foi transferido em 1006 para Sinhyeolsa, local associado ao atual templo Jingwansa, em Seul. O abade Jingwan teria escavado um esconderijo sob uma cama para protegê-lo, permitindo que escapasse de diversas tentativas de assassinato.

Em 1009, o comandante Gang Jo derrubou o rei Mokjong e colocou Wang Sun no trono. Assim começou o reinado de Hyeonjong, embora o próprio Gang Jo tenha concentrado o poder político e militar até novembro de 1010.

Invasão, queda da capital e fuga para o sul

O Império Khitan, também conhecido como Liao, usou o golpe de Gang Jo como justificativa para invadir Goryeo. Hyeonjong entregou ao comandante uma força de 300 mil homens, mas o exército foi derrotado e Gaegyeong acabou ocupada.

Protegido pelo oficial Ji Chae-mun, o rei fugiu até Naju, no sul da península, antes de conseguir retornar à capital. As crônicas descrevem a jornada como uma das retiradas reais mais humilhantes da história coreana. Em Changhwa, funcionários locais tomaram suas armas; em Jeokseong, grupos armados dispararam flechas contra a comitiva. Ao deixar Gongju, Hyeonjong precisou separar-se da rainha grávida. Em Jeonju, o governador Jo Yong-gyeom tentou sequestrá-lo, mas fracassou.

Com o governo central praticamente desfeito, comandantes regionais assumiram a resistência e combateram as tropas invasoras. Durante a permanência em Gongju, Hyeonjong também se relacionou com uma filha de Kim Eun-bu. As filhas desse vínculo mais tarde se tornariam rainhas.

Revolta militar e consolidação do governo civil

O custo da guerra deixou o Estado sem recursos suficientes para pagar os funcionários. Em 1014, a corte confiscou terras destinadas ao sustento de oficiais militares da capital. Generais que haviam se destacado contra os khitanos, entre eles Choe Jil e Kim Hun, reagiram: prenderam dois altos funcionários, entraram no palácio e os espancaram diante do rei.

Os militares alegavam que estavam sendo punidos apesar dos serviços prestados na guerra e exigiram acesso aos mesmos postos elevados concedidos aos funcionários civis. Hyeonjong aceitou as reivindicações naquele momento, mas preparou uma reação.

Em 1015, sob o pretexto de homenagear os oficiais de maior mérito, o rei promoveu um banquete em Seogyeong. Quando os convidados estavam embriagados, forças leais ao monarca atacaram e mataram 19 generais. O episódio consolidou a supremacia da administração civil, mas também mostrou a violência empregada por Hyeonjong para eliminar adversários e reforçar sua autoridade.

A vitória decisiva em Gwiju

Registros da dinastia Liao indicam que a corte khitana tomou conhecimento do expurgo e que ganharam força as propostas de uma nova campanha contra Goryeo. Em 1018, os khitanos voltaram a invadir após exigirem que Hyeonjong comparecesse à corte imperial.

A ofensiva terminou em uma grande derrota dos invasores na batalha de Gwiju. Sob o comando do general Gang Gam-chan, as forças de Goryeo destruíram grande parte do exército inimigo e afastaram a ameaça. A vitória tornou-se um dos episódios militares mais conhecidos da história coreana.

Hyeonjong precisou fugir da capital durante duas invasões, mas conseguiu atravessar a crise iniciada por sua ascensão turbulenta. Depois de sobreviver a conflitos familiares, atentados, vida forçada como monge, golpe de Estado e ocupação estrangeira, o rei passou a concentrar esforços na reorganização do país.

Reconstrução do Estado e de Gaegyeong

No período posterior à guerra, Hyeonjong reformou instituições, recrutou funcionários e limitou o poder das elites locais, fortalecendo a monarquia e a administração central. Também nomeou para cargos importantes figuras ligadas às antigas elites do reino de Silla, próximas à família materna do rei.

Ao mesmo tempo que vigiava integrantes da família real e líderes regionais capazes de desafiar o trono, Hyeonjong procurou ampliar as relações diplomáticas com a dinastia Song, na China, como parte da resposta às ameaças dos khitanos e de grupos da fronteira.

A estrutura administrativa foi revista. Em 1022, os títulos das principais autoridades locais foram simplificados. Dois anos depois, Gaegyeong foi ampliada e dividida em cinco setores, 35 distritos e 314 unidades menores. Em 1029, no 20º ano do reinado, foi concluída uma muralha externa de 23 quilômetros. O monarca também havia ampliado, em 1011, a área fortificada do palácio e ordenado a construção de uma nova estrutura real em Jangnakgung.

O governo incentivou a agricultura e a criação de bichos-da-seda, regulamentou a criação de cavalos e adotou medidas para distribuir de forma mais equilibrada a cobrança de impostos e a armazenagem de grãos.

Religião, educação e recuperação da memória

Hyeonjong restaurou o Festival das Lanternas e o Palgwanhoe, celebrações religiosas e políticas que estavam interrompidas desde o reinado de Seongjong. Também promoveu o confucionismo: concedeu títulos póstumos aos estudiosos Seol Chong e Choe Chi-won e inaugurou a prática de homenageá-los no santuário confucionista do Estado.

Como os registros históricos de Goryeo haviam sido destruídos durante as guerras, o rei ordenou que fossem novamente compilados. No campo budista, impulsionou a produção da primeira edição coreana do cânone budista, conhecida como Tripitaka de Goryeo inicial, e determinou a construção do templo Hyeonhwasa, importante centro da tradição doutrinária.

Essas iniciativas fizeram do reinado um período não apenas de recuperação militar e administrativa, mas também de reconstrução da memória oficial e da vida religiosa de Goryeo.

O legado de Hyeonjong

Hyeonjong morreu em 1031, aos 40 anos, e foi sepultado em Seolleung, na região hoje pertencente a Kaepung. Sua trajetória reúne alguns dos momentos mais dramáticos da história de Goryeo: a origem familiar controversa, a morte precoce da mãe, o exílio do pai, a reclusão em templos, as tentativas de assassinato, a deposição de um rei e a queda da capital diante de uma invasão.

Seu nome ficou ligado à vitória de Gwiju e à capacidade de reconstruir um Estado abalado pela guerra. As reformas administrativas e econômicas, a ampliação das defesas de Gaegyeong, a retomada dos registros históricos e os projetos budistas e confucionistas formam a parte mais duradoura de seu legado. O massacre dos 19 generais, no entanto, revela o lado autoritário dessa consolidação: a restauração da ordem civil e do poder real também foi conduzida por meio de uma repressão calculada e violenta.

Source: Original Korean article - Trendy News Korea

Comentários