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Uma vida entre a aldeia e Seul
Kim Yu-jeong, um dos nomes marcantes do conto moderno coreano, nasceu em 12 de fevereiro de 1908 e morreu de tuberculose pulmonar em 29 de março de 1937. Escritor, ensaísta e poeta, viveu durante a ocupação japonesa da península Coreana e retratou a pobreza que conheceu tanto no campo quanto na cidade, combinando humor, humanidade e melancolia.
Sua família tinha raízes em Sille, aldeia rural de Chuncheon, na atual província de Gangwon. Embora uma irmã tenha afirmado que ele nasceu em Seul, o próprio autor escreveu no ensaio “Um vilarejo nas montanhas em maio” que sua terra natal ficava nas montanhas de Gangwon.
Kim era o caçula de oito irmãos e descendia de uma família ligada à administração da dinastia Joseon. A estabilidade, porém, desapareceu cedo. Sua mãe morreu em 1915, e o pai, em 1917. Depois que o irmão mais velho assumiu o patrimônio familiar, as finanças se deterioraram e a família passou por diferentes bairros de Seul. A conduta desse irmão mais tarde inspiraria o conto “Irmão”.
Antes da escola regular, Kim estudou clássicos chineses e caligrafia. Frequentou a Escola Pública Primária Jaedong e, a partir de 1923, a Escola Secundária Hwimun, onde se aproximou do futuro escritor Ahn Hoe-nam. Gostava de esportes, cinema, romances, violino e gaita. Chegou a criar um grupo de gaita na escola e realizou uma apresentação solo em um evento do cinema Dansungsa. Em 1930, ingressou no curso de humanidades da Escola Profissional Yonhi, mas foi desligado ainda naquele ano.
Doença, frustrações e trabalho no campo
A pobreza e os problemas de saúde acompanharam Kim desde a juventude. Depois de uma cirurgia para tratar hemorroidas, sofreu de pleurite e tuberculose. No fim do período escolar, apaixonou-se pela cantora tradicional Park Rok-ju. Enviou cartas, presentes e até uma mensagem escrita com sangue, mas não foi correspondido. Também a procurou pessoalmente, esperou diante de um estabelecimento onde ela trabalhava e chegou a ameaçá-la.
De volta a Chuncheon, Kim preparou uma ação contra o irmão pela divisão do patrimônio e passou a observar de perto as condições precárias dos agricultores de Sille. Em 1931, entrou na Escola Profissional Boseong, em Seul, mas voltou a ser expulso. Trabalhou como supervisor em uma mina na região de Chungcheong, até que a piora da saúde o levou novamente à aldeia. A experiência no setor mineral forneceria material para contos como “O campo de feijão onde se cava ouro”, “Bonança” e “Ouro”.
Entre 1930 e 1932, organizou com jovens locais associações de agricultores e de mulheres. Em uma cabana construída perto da casa da família, participou da criação de uma escola noturna e de ações educativas no campo. O grupo acabou reconhecido como uma escola comunitária chamada Geumbyeonguisuk, onde Kim atuou em uma campanha de alfabetização. Um documentário produzido pela emissora de Chuncheon por ocasião do centenário do escritor relatou que ele tratava com linguagem respeitosa até mesmo agricultores arrendatários, então situados na base da hierarquia rural.
Uma carreira literária de pouco mais de dois anos
Kim concluiu seu primeiro trabalho, “Sim Cheong”, em junho de 1932, embora o texto só tenha sido publicado em 1936. No ano seguinte, lançou “O viajante das montanhas”, inspirado na história de uma vendedora ambulante que ele ouviu em Chuncheon, além de outros contos.
O reconhecimento chegou em 1935, quando “Chuva repentina” conquistou o primeiro lugar no concurso literário de novos autores do jornal Chosun Ilbo. “Bonança” recebeu uma menção no concurso do JoongAng Ilbo. No mesmo ano, Kim publicou textos que se tornariam centrais em sua obra, entre eles “Primavera, primavera”, “O campo de feijão onde se cava ouro” e “Manmubang”. “Camélia” apareceu em 1936, e seus últimos contos foram publicados em 1937.
Embora sua atividade profissional tenha durado apenas pouco mais de dois anos, o autor deixou cerca de 30 contos, um romance inacabado e uma tradução. Também integrou a fase final do Guinhoe, grupo literário de nove integrantes que reuniu importantes autores modernistas coreanos. Conviveu com escritores como Yi Sang, Kim Mun-jip e Hyeon Deok. Este último concluiu, após a morte de Kim, a parte final da obra inacabada “A história de Dupo”.
As dificuldades materiais permaneceram constantes. Kim aceitava encomendas de textos para pagar remédios, embora por vezes gastasse o dinheiro com bebida. Em outro episódio de paixão não correspondida, enviou 31 cartas a Park Bong-ja, colaboradora de uma revista que ele não conhecia pessoalmente, e não recebeu resposta.
O riso diante de uma realidade miserável
A obra de Kim Yu-jeong costuma ser dividida de acordo com três experiências. “Primavera, primavera” e “Camélia” mostram a vida pobre e simples dos moradores de Sille. “Bonança” e “O campo de feijão onde se cava ouro” acompanham pessoas que, pressionadas pela miséria, perseguem a promessa de enriquecimento nas minas. Outros contos refletem diretamente a sobrevivência precária do próprio escritor em Seul.
Seus personagens são frequentemente ingênuos e obstinados. A linguagem coloquial, os acontecimentos inesperados e as reviravoltas criam situações cômicas, mas o riso nunca está separado da pobreza e da humilhação. Em “Camélia”, uma paisagem rural serve de cenário para o despertar afetivo de dois adolescentes, tratado com leveza e humor.
Kim também foi um leitor de interesses amplos. Na juventude, carregava poemas de Lord Byron e recomendava ao sobrinho autores como Dostoiévski, Tchékhov, Gogol e Lu Xun. Em uma pesquisa sobre leitura, citou o clássico coreano “A história de Hong Gildong” e “Ulisses”, de James Joyce, entre as obras que mais o impressionaram. Seus interesses ainda incluíam Nietzsche, Malthus, Piotr Kropotkin e Karl Marx.
A escrita mantida até os últimos dias
A tuberculose se agravou entre o segundo semestre de 1936 e o inverno seguinte. Depois de viver em um quarto alugado por sua cunhada, Kim mudou-se para a casa do cunhado na região de Gwangju, na província de Gyeonggi.
Em 18 de março de 1937, escreveu a Ahn Hoe-nam um texto conhecido como “Carta a Pil-seung”. “Pil-seung, eu realmente quero me levantar”, afirmou. Também disse que desejava voltar a traduzir romances policiais e pediu ao amigo ajuda para encontrar uma saída da situação em que se encontrava.
Kim Yu-jeong morreu às 6h30 de 29 de março de 1937. Seu corpo foi levado de Gwangju para um crematório no bairro de Hongje, em Seul. A coletânea “Camélia” saiu em 1938, e suas obras completas foram publicadas em 1968.
Em 2002, a cidade de Chuncheon inaugurou a Vila Literária Kim Yu-jeong, com a reconstrução da casa natal e um espaço de exposições. Dois anos depois, a estação ferroviária de Sinnam, próxima a Sille, passou a levar o nome do escritor. Sua breve produção permanece associada à capacidade de narrar a dureza do campo e da cidade sem separar a comicidade da dor.
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