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De intérprete real a reformista
Jornalista, educador e ativista pela independência, Hanseo Namgung Eok (1863-1939) dedicou a vida a difundir ideias de soberania e resistência durante o período em que a Coreia sofreu crescente pressão estrangeira e acabou anexada pelo Japão.
Nascido em 27 de dezembro de 1863, em Jeong-dong, na então capital Hanseong, atual Seul, Namgung estudou chinês clássico antes de ingressar, em 1883, em uma escola de inglês administrada por americanos. Depois de concluir o curso, trabalhou como aprendiz na alfândega e entrou para o serviço público. Em 1887, tornou-se intérprete do rei Gojong.
No mesmo ano, integrou uma missão diplomática que seguiria para Reino Unido, Rússia e Alemanha, mas permaneceu por dois anos em Hong Kong devido à interferência da China Qing. De volta à Coreia, ocupou cargos administrativos e, durante as Reformas Gabo de 1894, dirigiu o setor de obras públicas do Ministério do Interior. Participou da modernização de vias de Seul, incluindo áreas de Jongno e Jeong-dong, e da implantação do Parque Pagoda.
Namgung também ensinou gramática inglesa e história coreana na Escola Heunghwa. Em fevereiro de 1896, após o rei Gojong buscar proteção na representação diplomática russa, deixou o serviço público.
Jornais contra o avanço estrangeiro
Em 1896, Namgung participou com Seo Jae-pil e Yun Chi-ho da criação do jornal Dongnip Sinmun, conhecido como Jornal da Independência. Atuou como repórter e articulista e, em julho daquele ano, ajudou a fundar o Clube da Independência, organização que defendia a transformação da monarquia absoluta do Império Coreano em uma monarquia constitucional, com a instalação de um Parlamento.
Sua atuação no movimento levou à prisão, em novembro de 1898, ao lado de outros 17 dirigentes. Dois meses antes, ele havia fundado com Na Su-yeon e Yu Geun o Hwangseong Sinmun, do qual se tornou presidente. Publicado diariamente e escrito em uma combinação de caracteres chineses e alfabeto coreano, o jornal promovia a educação pública e apoiava as atividades do Clube da Independência.
A cobertura crítica às ambições de potências estrangeiras voltou a colocá-lo na mira das autoridades. Em 1900, foi detido após publicar informações de jornais internacionais sobre uma possível divisão da Coreia entre Rússia e Japão. Em 1902, acabou preso e torturado por um editorial que criticava a expansão japonesa e os acordos entre russos e japoneses. Libertado quatro meses depois, seria novamente encarcerado em 1903, sob a falsa acusação de planejar uma revolta armada. Após a apuração do caso, foi solto e deixou a direção do jornal.
Educação como projeto de resistência
Em 1905, a pedido do rei Gojong, Namgung assumiu um posto administrativo em Seongju, mas renunciou quando o Tratado de Eulsa restringiu a soberania coreana. Nomeado magistrado de Yangyang no ano seguinte, trabalhou pela abertura de uma escola moderna, pela melhoria de estradas e pela instalação de um hospital. Em julho de 1907, fundou a Escola Hyeonsan, voltada à formação de estudantes com uma perspectiva de defesa nacional.
Naquele ano, o Japão forçou a abdicação de Gojong e impôs um novo tratado à Coreia. Namgung deixou mais uma vez o governo e, em novembro, participou da fundação da Associação Coreana, da qual foi presidente. A entidade publicou periódicos e promoveu uma campanha de esclarecimento patriótico. Em 1908, ele também criou a Associação Gwandong, organização educacional da província de Gangwon, e lançou uma revista dedicada ao ensino.
Depois da anexação da Coreia pelo Japão, em 1910, Namgung concentrou esforços na formação das novas gerações. Passou a ensinar língua coreana, história e economia doméstica na Escola Baewha. Converteu-se ao cristianismo em 1911 e, no ano seguinte, acumulou a direção da Academia Juvenil Sangdong.
Além de produzir livros didáticos, entre eles obras sobre educação familiar e escrita coreana, incentivou ideias de independência, divulgou letras patrióticas e trabalhou na criação e disseminação de estilos de caligrafia no alfabeto hangul.
A escola de Mogok e o cultivo da mugunghwa
Com a saúde debilitada, Namgung mudou-se em 1918 para Boriul, no condado de Hongcheon, terra de seus antepassados na província de Gangwon. Ali fundou uma igreja metodista e passou a atuar como pregador. Em setembro de 1919, criou a Escola Mogok junto à comunidade religiosa.
Convencido de que era necessário combater o analfabetismo, aceitava não apenas jovens, mas também alunos de 30 e 40 anos. Durante o dia, trabalhava como professor; à noite, orientava moradores da região; nos fins de semana, pregava na igreja.
No terreno da escola, Namgung instalou um viveiro de mugunghwa, nome coreano da flor que ele transformou em instrumento de educação patriótica. As mudas eram cultivadas e enviadas para diferentes regiões do país. Ele também compôs hinos, poemas e canções sobre trabalho e amor à pátria, distribuídos a igrejas e escolas cristãs.
Entre as composições atribuídas diretamente a Namgung estava Samcheolli Bando Geumsugangsan, que começava com um chamado para que as pessoas fossem trabalhar. Outras músicas, como Jardim de Mugunghwa, Canção dos Gansos Selvagens, Canção de Joseon, Canção do Movimento e Canção da Geografia de Joseon, também se tornaram conhecidas.
Segundo os relatos preservados sobre sua trajetória, Namgung subia diariamente o monte Yurisan, em Hongcheon, para rezar pela expulsão do domínio japonês e para que o povo coreano tivesse força para não se curvar diante da injustiça. As autoridades japonesas queimaram 80 mil mudas de mugunghwa cultivadas por ele e obrigaram a Escola Mogok a ser incorporada ao sistema público.
Prisão, tortura e reconhecimento póstumo
Em novembro de 1933, Namgung foi preso pela polícia japonesa por participar da organização clandestina cristã Sipjadang, ligada ao movimento de independência. Ficou encarcerado durante oito meses, recusou propostas de cooperação feitas por órgãos do governo colonial e foi torturado.
Libertado em razão da idade avançada, recuperou-se inicialmente na casa de Yun Chi-ho, em Kaesong, antes de voltar a Hongcheon. Após a morte da mulher, Yang Hye-deok, em 1937, disse a discípulos e conhecidos que não queria um túmulo: pediu para ser enterrado sob uma árvore frutífera, para que seu corpo servisse de adubo.
Namgung Eok morreu em 5 de abril de 1939, aos 75 anos, ainda sofrendo as consequências das torturas recebidas na prisão. Em 1962, foi homenageado postumamente com uma comenda presidencial. Em 1977, recebeu a Ordem do Mérito da Fundação Nacional, na classe Independência. Sua memória também é preservada em um museu instalado em Mogok-ri, no condado de Hongcheon.
Sua trajetória reuniu diferentes frentes de atuação: como funcionário público, participou da modernização urbana de Seul; como jornalista, denunciou os riscos da expansão estrangeira; e, como educador, fundou escolas, escreveu livros didáticos e espalhou pelo país mudas de mugunghwa e mensagens de resistência.
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