Com aprovação em 40%, Lee Jae-myung busca apoio de sindicatos e movimentos civis para sustentar agenda de reformas

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Queda na aprovação muda o foco político do governo sul-coreano
O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, intensificou o diálogo com sindicatos e organizações da sociedade civil em um momento de desgaste de sua popularidade. A sequência de reuniões indica uma tentativa de reorganizar a base política do governo antes de ampliar novamente a interlocução com setores mais distantes do campo progressista. Mais do que uma reação a uma pesquisa isolada, o movimento revela um desafio recorrente das democracias contemporâneas: como transformar o apoio de grupos politicamente mobilizados em confiança mais ampla na capacidade de governar.
Em encontro realizado no dia 4, na sede presidencial conhecida como Cheong Wa Dae, ou Casa Azul, Lee afirmou que as organizações civis terão papel importante no que chamou de processo de ampla reforma social. Participaram representantes de entidades progressistas, entre elas articulações nacionais que reúnem movimentos sociais, organizações de defesa de direitos e grupos envolvidos em campanhas políticas. A declaração não foi apresentada apenas como um gesto de cortesia. Ao atribuir à sociedade civil uma parcela da responsabilidade pelas reformas, o presidente sinalizou que pretende buscar fora da estrutura estatal parte da legitimidade necessária para executar sua agenda.
Na véspera, Lee havia recebido os presidentes das duas principais centrais sindicais do país: Kim Dong-myung, da Federação dos Sindicatos Coreanos, conhecida pela sigla em inglês FKTU, e Yang Kyung-soo, da Confederação Coreana de Sindicatos, a KCTU. A reunião incluiu discussões sobre três grandes projetos governamentais e sobre a possibilidade de ampliar a idade de aposentadoria compulsória. Embora os detalhes das iniciativas não tenham sido apresentados no resumo divulgado, a escolha dos interlocutores é politicamente significativa. As duas centrais representam tradições distintas do sindicalismo sul-coreano e, juntas, ocupam posição central nos debates sobre emprego, salários, proteção social e relações de trabalho.
O contexto ajuda a explicar a concentração desses compromissos. Pesquisa do instituto Gallup Korea, divulgada também no dia 4, mostrou que 40% dos entrevistados aprovavam o desempenho de Lee. O resultado ficou dois pontos percentuais abaixo do levantamento anterior e marcou o nível mais baixo desde sua posse. A estratégia presidencial, portanto, parece combinar a recuperação de vínculos com o eleitorado progressista, a incorporação de demandas trabalhistas ao centro do debate nacional e a nomeação de figuras capazes de transmitir uma identidade política mais nítida ao governo.
O que significa uma aprovação de 40%
O número deve ser interpretado com cautela. A pesquisa ouviu 1.001 adultos entre os dias 1º e 3, por meio de entrevistas telefônicas conduzidas por pesquisadores. Os participantes foram selecionados com o uso de números virtuais de celulares, método comum em levantamentos de opinião na Coreia do Sul. A margem de erro é de 3,1 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A taxa de resposta foi de 10,9%, enquanto a proporção de contatos efetivamente realizados chegou a 47,4%.
Isso significa que os 40% não devem ser tratados como uma fotografia matemática exata da população. Considerada a margem de erro, pequenas oscilações entre pesquisas consecutivas podem não representar uma mudança estrutural. Ainda assim, o fato de o índice ser o menor do mandato tem peso político. Pesquisas de popularidade influenciam a percepção de parlamentares, partidos, sindicatos, meios de comunicação e integrantes do próprio governo sobre a capacidade presidencial de liderar negociações e impor prioridades.
Na Coreia do Sul, o presidente exerce mandato único de cinco anos e não pode disputar a reeleição imediata. Essa característica cria uma dinâmica diferente da brasileira, em que a possibilidade de um segundo mandato molda decisões políticas desde os primeiros anos de governo. Em Seul, a popularidade continua sendo essencial, mas funciona menos como preparação direta para uma campanha de reeleição e mais como instrumento de autoridade perante o Parlamento, a burocracia, os governos locais e os diferentes grupos de interesse.
Uma aprovação de 40% tampouco significa que a base política de Lee tenha desaparecido. O presidente mantém um contingente expressivo de apoiadores, suficiente para evitar a imagem de colapso imediato. O problema é a direção da curva. Se novas pesquisas confirmarem uma tendência de queda, o governo poderá enfrentar maior resistência para aprovar medidas controversas, administrar conflitos trabalhistas ou convencer a população de que reformas com custos de curto prazo produzirão benefícios duradouros.
A resposta do governo sugere que o Palácio Presidencial vê a consolidação da base progressista como uma etapa necessária para interromper o desgaste. A lógica é conhecida: quando o apoio geral diminui, o primeiro objetivo costuma ser impedir a desmobilização do núcleo mais fiel. Só depois dessa estabilização o governo tenta recuperar eleitores moderados ou sem identificação partidária. O risco é transformar uma manobra defensiva em confinamento político, falando apenas com quem já está próximo.
Sindicatos e sociedade civil têm peso próprio na política coreana
Para leitores brasileiros, a expressão “sociedade civil” pode evocar desde organizações não governamentais até associações profissionais, movimentos populares, igrejas e entidades de defesa de direitos. Na Coreia do Sul, esse universo também é diverso, mas carrega uma memória política particular. Movimentos estudantis, religiosos, trabalhistas e de direitos humanos tiveram participação importante na resistência à ditadura e na democratização do país, consolidada no fim dos anos 1980. Por isso, organizações civis progressistas frequentemente se apresentam não apenas como representantes de interesses específicos, mas como guardiãs de reformas democráticas.
O sindicalismo sul-coreano também precisa ser compreendido nesse contexto. A industrialização acelerada transformou o país, em poucas décadas, de uma economia empobrecida pela guerra em potência exportadora. Esse processo foi liderado por grandes conglomerados familiares, os chaebols, como Samsung, Hyundai e LG, e acompanhado por longas jornadas, disciplina rígida nas fábricas e conflitos trabalhistas intensos. O termo chaebol não corresponde exatamente a uma empresa comum: designa grupos empresariais controlados por famílias e compostos por diversas companhias, com grande influência econômica e social.
As duas grandes centrais sindicais refletem histórias e métodos diferentes. A FKTU é mais antiga e costuma ser vista como relativamente moderada e aberta a mecanismos institucionais de negociação. A KCTU, criada no contexto posterior à democratização, tem tradição mais combativa e presença relevante em greves e mobilizações. Reunir as duas lideranças na mesma agenda permite ao governo projetar a imagem de que pretende dialogar com um espectro amplo do trabalho organizado. Ao mesmo tempo, aumenta a complexidade das negociações, porque as centrais nem sempre coincidem em suas prioridades ou estratégias.
A discussão sobre a idade de aposentadoria compulsória exemplifica essa dificuldade. A Coreia do Sul envelhece rapidamente e enfrenta baixa natalidade, redução futura da força de trabalho e pressão crescente sobre a previdência. Prolongar a permanência de trabalhadores mais velhos no mercado pode aliviar parte desses problemas e preservar renda. Porém, empresas podem resistir ao aumento de custos, enquanto jovens podem temer maior dificuldade para conseguir vagas estáveis. Também existe o debate sobre sistemas salariais baseados em tempo de serviço, que tornam empregados mais antigos mais caros para as companhias.
Assim, uma reunião presidencial pode abrir canais, mas não resolve automaticamente os conflitos. Para produzir resultado, o governo precisará explicar quem terá direito à extensão do emprego, como serão tratados salários e benefícios, quais empresas serão afetadas e de que maneira a medida dialogará com políticas de contratação de jovens. Sem essas respostas, o encontro corre o risco de permanecer como símbolo político dirigido à base de Lee, sem impacto concreto sobre a vida dos trabalhadores.
Nomeações reforçam a tentativa de reconstruir a identidade progressista
A movimentação não se limita à agenda presidencial. Mudanças recentes na equipe de governo também apontam para uma aproximação com o campo progressista. Lee indicou Yong Hye-in para comandar o Ministério da Igualdade de Gênero e Família e escolheu Lee Hae-min, ex-parlamentar do Partido da Inovação da Coreia, para uma função presidencial voltada ao planejamento do futuro da inteligência artificial.
As nomeações têm valor administrativo, mas também carregam mensagens políticas. A pasta de Igualdade de Gênero e Família ocupa posição particularmente sensível na Coreia do Sul. O país vive uma forte polarização em torno de feminismo, direitos das mulheres, serviço militar obrigatório para homens e desigualdades no mercado de trabalho. Entre jovens, essas discussões adquiriram peso eleitoral e alimentaram conflitos nas redes sociais. Escolher uma figura associada a pautas progressistas indica que Lee não pretende abandonar esse terreno, mesmo diante do risco de oposição.
A inteligência artificial, por sua vez, está no centro da estratégia econômica sul-coreana. O país possui empresas importantes nos setores de semicondutores, eletrônicos, telecomunicações e plataformas digitais, mas enfrenta concorrência dos Estados Unidos, da China e de outros centros tecnológicos. Ao entregar uma função de destaque a uma ex-parlamentar vinculada a uma legenda reformista, o governo aproxima política industrial, inovação e composição de alianças.
Segundo relatos divulgados pela imprensa sul-coreana, Lee também reconheceu, durante encontro com a nova liderança do Partido Democrático, que o governo não havia dedicado atenção suficiente ao campo progressista. Quando conectadas, as reuniões com movimentos civis, a conversa com as duas centrais e as nomeações formam um padrão: o presidente procura demonstrar que sua administração mantém compromissos ideológicos reconhecíveis e não pretende governar apenas por meio de acordos tecnocráticos.
Esse tipo de sinalização pode reanimar militantes e organizações que cobram coerência do governo. Contudo, nomeações só produzirão ganhos duradouros se forem acompanhadas de capacidade de gestão. Ministros e assessores escolhidos para representar determinada corrente política acabam avaliados por resultados: implementação de políticas, diálogo com o Parlamento, transparência e resposta a crises. Se a dimensão simbólica superar a entrega concreta, a tentativa de consolidar a base pode ampliar a frustração que pretendia conter.
Por que reunir a base não garante recuperação
A estratégia de Lee tem racionalidade política. Sindicatos e organizações civis não oferecem apenas votos; possuem quadros especializados, capacidade de mobilização, acesso a comunidades e legitimidade em debates públicos. Em períodos de disputa intensa, esses recursos ajudam um governo a defender projetos e responder à oposição. Além disso, o diálogo reduz o risco de que antigos aliados se transformem em críticos organizados.
O limite está na diferença entre reconhecimento político e avaliação cotidiana. Um eleitor pode aprovar a aproximação com movimentos sociais e, ao mesmo tempo, desaprovar a condução da economia, o custo de vida, a oferta de empregos ou a resposta do governo a uma crise específica. Gestos dirigidos à base dificilmente substituem resultados percebidos pela população. A queda de dois pontos na pesquisa, mesmo após mensagens progressistas e mudanças na equipe, sugere que o efeito dessas decisões ainda não chegou ao conjunto do eleitorado — ou não foi suficiente para alterar sua avaliação.
Existe ainda um dilema de comunicação. Quanto mais o governo enfatiza a reconexão com a esquerda, maior é a necessidade de demonstrar que as propostas beneficiam setores amplos da sociedade. A extensão da vida profissional, por exemplo, não pode ser apresentada apenas como reivindicação sindical. Ela precisa ser vinculada à segurança de renda dos idosos, à sustentabilidade do sistema previdenciário, à produtividade das empresas e às oportunidades para os jovens. A mesma regra vale para políticas de igualdade e de inteligência artificial.
O teste decisivo, portanto, será a conversão do diálogo em decisões verificáveis. No caso da sociedade civil, será preciso definir quais reformas entrarão na pauta, como ocorrerá a participação das entidades e que mecanismos evitarão a captura das políticas por grupos específicos. No caso dos sindicatos, o governo terá de apresentar critérios, cronogramas e formas de mediação entre trabalhadores e empregadores. No caso das nomeações, os escolhidos precisarão mostrar competência para lidar com temas tecnicamente complexos e politicamente polarizados.
Também será necessário observar as próximas pesquisas, sem transformar cada levantamento em plebiscito semanal. Uma sequência de resultados apontando estabilização ou recuperação daria força à tese de que a consolidação da base funcionou. Se a aprovação continuar caindo, a Casa Azul enfrentará pressão para ampliar a agenda, buscar interlocução com eleitores de centro e apresentar resultados econômicos e sociais mais visíveis.
O que esse movimento significa para o Brasil
O impacto imediato da queda de popularidade de Lee sobre o Brasil é limitado. A pesquisa trata da política doméstica sul-coreana e não há, nas informações disponíveis, indicação de mudança direta na relação bilateral. Ainda assim, as escolhas do governo em Seul merecem atenção brasileira porque Coreia do Sul e Brasil mantêm vínculos econômicos relevantes, especialmente nos setores de eletrônicos, automóveis, autopeças, tecnologia e energia.
Empresas sul-coreanas operam no mercado brasileiro e participam de cadeias produtivas que dependem de decisões tomadas em Seul. Uma política industrial mais conectada a sindicatos, inteligência artificial e grandes projetos nacionais pode influenciar estratégias de investimento, automação e qualificação profissional. Não é possível afirmar, com base nessa agenda presidencial, que haverá novos investimentos ou alterações específicas no Brasil. O ponto de atenção é outro: mudanças nas prioridades tecnológicas e trabalhistas da Coreia podem, no médio prazo, chegar às subsidiárias e aos fornecedores instalados no país.
A discussão sobre envelhecimento e permanência de trabalhadores mais velhos também oferece uma comparação útil. Brasil e Coreia do Sul possuem mercados de trabalho e sistemas previdenciários muito diferentes, mas ambos precisam debater como combinar aumento da expectativa de vida, produtividade, proteção social e entrada de jovens no emprego. No Brasil, reformas previdenciárias e mudanças nas regras de aposentadoria provocam disputas entre governo, Congresso, sindicatos e setor empresarial. Na Coreia, a extensão da idade de aposentadoria compulsória enfrenta tensão semelhante: uma solução fiscal ou demográfica pode criar novos conflitos trabalhistas se for aplicada sem negociação.
Há ainda uma diferença institucional importante. No Brasil, as centrais sindicais atuam em um ambiente fragmentado e convivem com sindicatos organizados por categorias profissionais e bases territoriais. Na Coreia do Sul, a presença pública da FKTU e da KCTU faz com que as duas confederações apareçam frequentemente como polos nacionais de negociação e mobilização. Para empresas brasileiras que fazem negócios com grupos coreanos, compreender esse papel é relevante, sobretudo em setores industriais nos quais greves e acordos coletivos podem afetar produção, exportações e fornecimento internacional de componentes.
O público brasileiro que acompanha a Coreia principalmente por meio do K-pop, das séries e do cinema também encontra nessa notícia um retrato de uma sociedade mais complexa do que a imagem produzida pela indústria cultural. O mesmo país associado a inovação, entretenimento e marcas globais convive com envelhecimento acelerado, competição intensa por empregos, desigualdade de gênero e forte mobilização sindical. Esses temas aparecem em filmes e séries coreanos, mas são também questões concretas da política nacional.
Para o Brasil, o principal aprendizado não está em copiar a estratégia de Lee. Está em observar como uma potência tecnológica tenta articular governo, empresas, trabalhadores e movimentos sociais enquanto sua liderança perde popularidade. A qualidade dessa coordenação pode influenciar o rumo econômico sul-coreano e, indiretamente, parceiros comerciais como o Brasil. Por enquanto, não há base para prever ruptura ou mudança substancial nas relações bilaterais.
O próximo teste será transformar encontros em políticas
A atual movimentação presidencial mostra que Lee identificou um problema político e escolheu uma resposta inicial: reconstruir a confiança entre aliados tradicionais. O governo procura lembrar aos progressistas que suas pautas permanecem na agenda, ao mesmo tempo que eleva sindicatos e organizações civis à condição de parceiros do debate nacional. Essa escolha pode oferecer sustentação em um período de queda da aprovação, mas não constitui, por si só, uma virada.
Os próximos passos serão mais difíceis do que a realização das reuniões. Reformas sociais exigem prioridades claras e capacidade de negociação. A ampliação da idade de aposentadoria compulsória envolve trabalhadores mais velhos, jovens, empresas e o sistema de proteção social. A agenda de igualdade de gênero toca uma das divisões culturais mais sensíveis do país. A política de inteligência artificial precisa equilibrar competitividade, emprego, segurança e concentração de poder econômico.
O desafio de Lee será demonstrar que a aproximação com a base progressista não representa fechamento do governo em um único campo, mas uma tentativa de construir apoio para medidas de interesse geral. Se sindicatos e movimentos civis ajudarem a formular políticas executáveis e socialmente compreensíveis, o diálogo poderá fortalecer o governo. Se os encontros produzirem apenas imagens e declarações, seu efeito provavelmente será curto.
A marca de 40% é um alerta, não uma sentença definitiva. A margem de erro da pesquisa recomenda prudência, e uma única rodada não permite concluir que a administração entrou em queda irreversível. Ao mesmo tempo, o pior resultado desde a posse obriga o presidente a mostrar por que sua agenda importa para quem não participa de organizações progressistas nem se identifica diretamente com o Partido Democrático.
Mais do que acompanhar a próxima oscilação percentual, será importante observar três elementos: a capacidade do governo de detalhar suas reformas, a reação de trabalhadores e empresas às propostas e a resposta dos eleitores menos vinculados a partidos. É dessa combinação — e não apenas da mobilização do núcleo fiel — que dependerá a possibilidade de Lee converter apoio organizado em uma recuperação mais ampla da confiança pública.
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