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Criadora do Claude inicia processo de listagem
A Anthropic, desenvolvedora do modelo de inteligência artificial generativa Claude, apresentou no dia 26 à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, a SEC, o formulário S-1 para uma oferta pública inicial de ações. O protocolo abre caminho para a empresa estrear na Nasdaq e representa o primeiro pedido de listagem nos Estados Unidos feito por uma companhia dedicada ao desenvolvimento de modelos de IA.
O movimento coloca a Anthropic à frente da OpenAI, responsável pelo ChatGPT, na corrida para levar uma das principais empresas do setor ao mercado acionário. A operação também deverá servir de referência para a avaliação de outras companhias de inteligência artificial.
Oferta pode ser a maior da história
Estimativas de mercado situam o valor da Anthropic entre US$ 1,5 trilhão e US$ 2 trilhões. A companhia buscaria alcançar o teto dessa faixa, e há previsões de que a avaliação possa até superar US$ 2 trilhões. Em maio, durante uma rodada de investimento, o negócio havia sido avaliado em US$ 965 bilhões.
O mercado projeta uma captação de US$ 100 bilhões. Se confirmada, seria a maior já registrada em uma oferta pública. O recorde anterior pertence à SpaceX, cuja listagem em junho teria alcançado uma avaliação de US$ 1,77 trilhão e levantado US$ 75 bilhões. Caso atinja os valores máximos projetados, a Anthropic superará as duas marcas.
A empresa pretende listar ações ordinárias classe A no Nasdaq Global Select Market, sob o código “ANT”. O documento enviado à SEC ainda não informa quantas ações serão vendidas nem a faixa de preço da oferta. Goldman Sachs e Morgan Stanley atuarão como coordenadores principais, acompanhados por outras 20 instituições financeiras.
A apresentação a investidores institucionais deve começar no início de novembro, com a estreia prevista para meados do mesmo mês. Uma das projeções aponta o dia 16 de novembro como a data mais próxima para o início das negociações.
Mercado avalia calendário da estreia
Na plataforma de previsões Kalshi, a probabilidade atribuída a um anúncio de IPO antes de 2027 chegou a 95%, mas a chance de conclusão antes da semana de 16 de novembro ficou em 14%. Já a Polymarket estimou em 69% a possibilidade de as ações começarem a ser negociadas antes de 20 de novembro. As plataformas usam critérios diferentes: a Kalshi considera como anúncio de IPO a ocorrência de ao menos um entre três eventos — aprovação do S-1 pela SEC, definição do preço da oferta ou concessão do código de negociação pela bolsa.
O momento escolhido chama atenção porque outras empresas de data centers e infraestrutura de IA vêm adiando ou abandonando planos de abertura de capital diante dos juros em alta e das dúvidas sobre uma possível bolha de investimentos no setor.
Receita dispara, mas balanço registra prejuízo bilionário
Segundo o documento, a Anthropic faturou US$ 16,286 bilhões no primeiro semestre, cerca de 14 vezes os US$ 1,16 bilhão registrados no mesmo período anterior. O resultado também supera com ampla margem a receita de US$ 4,59 bilhões informada para todo o ano de 2025. Apenas no segundo trimestre, o crescimento anual chegou a 1.368%.
O prejuízo operacional caiu de US$ 2,14 bilhões para US$ 693 milhões na comparação anual. O prejuízo líquido, porém, saltou para US$ 80,748 bilhões, influenciado principalmente pela reavaliação contábil de títulos conversíveis em ações e de instrumentos derivativos.
De acordo com o formulário, aproximadamente US$ 72,4 bilhões dessa perda correspondem a despesas contábeis sem saída efetiva de caixa. Excluído esse efeito, o lucro operacional ajustado foi de US$ 1,618 bilhão, primeiro resultado positivo da empresa em um semestre desde sua fundação.
Em 30 de junho, a Anthropic declarou possuir cerca de US$ 112,4 bilhões em caixa e equivalentes. O capital de giro informado chegou a US$ 131,6 bilhões.
Contratos de computação ampliam pressão financeira
O custo da infraestrutura necessária para treinar e operar sistemas de IA aparece entre os principais desafios da companhia. A Anthropic teria assumido compromissos superiores a US$ 600 bilhões para despesas de computação ao longo de aproximadamente dez anos com parceiros como Amazon e Google.
Uma estimativa aponta obrigações futuras de cerca de US$ 417 bilhões com fornecedores de data centers, equipamentos e serviços de nuvem. O documento menciona contratos de longo prazo superiores a US$ 114,5 bilhões com o Google, US$ 110 bilhões com a Amazon e US$ 44,9 bilhões com a Microsoft.
Parte desses acordos é difícil de cancelar ou exige pagamentos independentemente do volume efetivamente utilizado. Amazon e Google ocupam uma posição dupla: são investidores centrais da Anthropic e, ao mesmo tempo, fornecem a infraestrutura da qual a empresa depende.
Riscos vão de uso militar à falta de memória para chips
O formulário tem cerca de 400 páginas, das quais 94 são dedicadas a fatores de risco. A Anthropic alerta para o uso indevido ou militar da inteligência artificial e afirma que sistemas altamente avançados, se desenvolvidos e operados sem salvaguardas, supervisão e segurança adequadas, podem criar riscos catastróficos ou existenciais para a humanidade.
A lista também inclui a oposição à construção de data centers, um processo contra o governo de Donald Trump e incertezas na cadeia de fornecimento de memória. A empresa destaca que a produção de memória de alta largura de banda, conhecida pela sigla HBM e essencial para aceleradores de IA, está concentrada em Samsung Electronics, SK Hynix e Micron. Essa dependência pode dificultar o acesso a chips avançados.
A Anthropic já havia divulgado que um grupo supostamente apoiado pela China manipulou o Claude para tentar invadir empresas de tecnologia, bancos, fabricantes de produtos químicos e órgãos governamentais.
Empresa aponta oportunidades na ciência
Além dos riscos, a companhia apresenta as ciências da vida como uma das principais oportunidades abertas pela IA, citando um possível papel decisivo no tratamento do câncer e do Alzheimer.
Com base em dados da consultoria IDC, o documento afirma que o aumento da produtividade dos trabalhadores do conhecimento poderá gerar um impacto econômico acumulado de US$ 22,5 trilhões até 2031.
O anúncio do pedido de abertura de capital reacendeu o entusiasmo com inteligência artificial em Nova York. No dia 26, os três principais índices fecharam em alta. A Nasdaq avançou 0,83%, enquanto o índice de semicondutores da Filadélfia subiu 2,82%. Entre as empresas do setor, Nvidia e Micron ganharam 2,39% e 2,98%, respectivamente.
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