
Imagem para ajudar a entender a matéria
Nascido em 26 de outubro de 1803, em Kaesong, na atual região fronteiriça entre as duas Coreias, Choe Han-gi foi um dos intelectuais mais singulares do fim da dinastia Joseon. Filósofo, geógrafo e autor prolífico, ele defendeu uma forma de conhecimento baseada na experiência e na comprovação, aproximando o silhak — corrente coreana voltada ao saber prático — das ideias reformistas que mais tarde impulsionariam a abertura do país.
Choe procurou combinar conceitos da filosofia do Leste Asiático com conhecimentos científicos vindos do Ocidente. Em uma época na qual o neoconfucionismo dominava a vida intelectual e política de Joseon, criticou o apego a verdades consideradas imutáveis e sustentou que o saber precisava ter utilidade concreta na vida das pessoas.
Uma vida dedicada aos livros
Filho de Choe Chi-hyeon, poeta que deixou uma coletânea em dez volumes, Choe Han-gi foi adotado por um parente que não tinha filhos e cresceu nas proximidades do Portão Sul de Hanseong, nome então usado para Seul. Seu pai adotivo, militar e calígrafo, colecionava livros e álbuns de caligrafia, ambiente que ajudou a formar o interesse precoce do jovem pela leitura.
Ele estudou escrita e neoconfucionismo com o pai biológico e o avô materno, além de ter passado pelos círculos de estudiosos como Kim Heon-gi e Kim Jeong-hui, conhecido pelo pseudônimo Chusa. Também se inspirou nas obras de Park Ji-won e Seo Gyeong-deok, aproximando-se de ideias como o uso do conhecimento para melhorar as condições materiais da sociedade e a investigação apoiada em fatos.
Em 1825, Choe foi aprovado nos exames de saengwon e jinsa, etapas do sistema oficial de seleção da elite letrada. No entanto, desistiu de seguir carreira pública depois de observar o que considerava vícios dos concursos e da administração. Passou então a estudar e escrever sobre clássicos confucionistas, história, ritos, matemática e geografia.
Sua busca por livros era tão intensa que ele procurava adquirir rapidamente as novidades editoriais trazidas da China. Muitas vezes comprava obras caras, lia o que precisava e depois as revendia por valores baixos. Mesmo diante da redução de seu patrimônio, recusou conselhos para deixar a capital e viver da agricultura: considerava ainda mais importante continuar obtendo livros.
Em 1841, rejeitou repetidos convites do primeiro-ministro Jo In-yeong para entrar no governo. Choe criticava a seleção de funcionários baseada em relações pessoais e familiares. Preferiu ensinar jovens, pesquisar e escrever, em vez de buscar prestígio por meio de um cargo.
Conhecimento construído pela experiência
O centro de sua filosofia era a ideia de que o conhecimento humano não nasce pronto, mas é formado pela experiência. Para Choe, o contato entre a mente e o mundo exterior ocorre por meio dos sentidos, como visão, audição, olfato e paladar. Quanto mais uma informação fosse confirmada por diferentes experiências sensoriais, maior seria sua confiabilidade.
Ele chamou de “inferência” o processo pelo qual as pessoas ampliam o pensamento a partir da experiência e da memória. Esse método incluía compreender princípios pelos vestígios observáveis, deduzir o caráter pelas emoções, examinar estados a partir do movimento, entender os outros tomando a si mesmo como referência e prever acontecimentos com base nas coisas concretas. As ideias foram apresentadas em livros publicados em 1836 e posteriormente reunidos na obra Gi Cheuk Che Ui.
Choe atribuía importância central ao gi, conceito que pode ser entendido como a energia ou matéria vital em transformação. Em vez de partir de princípios abstratos e difíceis de verificar diretamente, propunha observar os movimentos e os rastros do gi. Com essa abordagem, tentou explicar tanto as mudanças do universo e da natureza quanto as transformações da sociedade humana.
Essa filosofia, conhecida como gihal, exigia o desenvolvimento contínuo da percepção, da memória e da capacidade de inferência. Choe criticava a postura de tratar apenas a doutrina de Zhu Xi como verdade e rejeitava o fechamento intelectual do neoconfucionismo. Chegou a sustentar que virtudes como benevolência, justiça, respeito aos ritos e sabedoria, consideradas inatas por Mêncio, também seriam hábitos adquiridos pela experiência.
Para ele, o estudo só poderia ser chamado de verdadeiro quando estivesse ligado à vida. Caso contrário, seria um conhecimento vazio.
Dos mapas-múndi à medicina ocidental
Choe manteve contato próximo com Kim Jeong-ho, célebre cartógrafo coreano. Os dois gravaram em madeira um mapa-múndi que havia chegado da China. Quando Kim concluiu o mapa Cheonggudo, em 1834, Choe escreveu um texto para acompanhar a obra. No mesmo período, produziu estudos geográficos e teria participado da elaboração de outro mapa global cuja existência atual não foi confirmada.
Em Jigu Jeon-yo, de 1857, reuniu informações sobre geografia, história, produtos e conhecimentos de diferentes países. O livro apresentou teorias científicas ocidentais, entre elas a noção de uma Terra esférica que gira sobre o próprio eixo e orbita o Sol. Essas ideias ainda eram tratadas por parte da sociedade de Joseon como absurdas ou fantasiosas, mas Choe as incorporou à sua tentativa de conciliar ciência e filosofia oriental.
Ele também recorreu à física ocidental para descrever o som como uma vibração que se propaga e pode ser refletida ao encontrar obstáculos. Tentou explicar a refração da luz e examinou fenômenos relacionados ao cheiro e às cores. Em seus textos, criou denominações próprias para instrumentos como termômetro e higrômetro.
Em 1867, adaptou uma tradução chinesa de uma obra ligada ao astrônomo britânico William Herschel. Um ano antes, havia organizado materiais de medicina produzidos pelo médico e missionário britânico Benjamin Hobson, oferecendo aos leitores de Joseon uma visão geral da ciência médica ocidental. Choe comparou o corpo a um mecanismo no qual o gi opera e reconheceu que a medicina ocidental estava mais avançada que a oriental em anatomia e patologia.
Educação ampla e seleção por capacidade
As propostas de Choe também alcançavam a educação. Ele argumentava que o ensino não deveria ser privilégio das classes dominantes nem apenas um caminho para transmitir riqueza e posição social. Defendia o acesso de pessoas comuns e mulheres e propunha um currículo que incluísse matemática, física, comércio, astronomia, mecânica e medicina, além dos estudos confucionistas.
Também queria incentivar conhecimentos ligados à agricultura, indústria, comércio, tecelagem e máquinas. Em vez de exaltar uma vida de pobreza contemplativa, orientava seus alunos a aprender técnicas comerciais, médicas e artesanais.
No livro Injeong, de 1860, sustentou que o Estado deveria selecionar pessoas por talento e capacidade demonstrada, e não por linhagem familiar ou formação ligada a grupos privilegiados. Defendeu ainda que pessoas com deficiência tivessem oportunidades de aprender e trabalhar. Em outro texto, relacionou a qualidade da política e da educação do rei à escolha dos estudiosos encarregados de aconselhá-lo.
Abertura ao exterior e resistência política
Depois da ascensão do rei Gojong, Choe passou a defender o comércio e a abertura internacional. Retomou argumentos de pensadores como Park Ji-won e Park Je-ga em favor do intercâmbio econômico e da adoção de conhecimentos estrangeiros. Para ele, Joseon deveria relacionar-se com outros países em condições de igualdade e absorver de forma seletiva a ciência e a tecnologia ocidentais.
As propostas receberam apoio de um pequeno grupo de intelectuais, entre eles Park Gyu-su, Oh Gyeong-seok e Yu Dae-chi, mas enfrentaram críticas de estudiosos conservadores. Heungseon Daewongun, pai de Gojong e principal autoridade política do período, também reagiu negativamente.
Durante a expedição militar dos Estados Unidos contra a Coreia, em 1871, Choe foi consultado sobre a defesa do país. Alertou que os soldados ocidentais usavam armas menores e mais resistentes que os canhões e mosquetes conhecidos localmente e recomendou preparação para a possível mobilização de grandes contingentes. Considerou mais útil permanecer na capital, consultando livros e relatórios do conflito, do que se deslocar para os acampamentos militares da ilha de Ganghwa.
Reconhecimento depois da morte
Entre 1830 e 1867, Choe escreveu sobre agricultura, matemática, astronomia, geografia, medicina, filosofia e administração de pessoal. Registros atribuem a ele mais de mil volumes, embora apenas parte dessa produção tenha chegado aos dias atuais.
Na velhice, empenhou livros e vendeu textos, pinturas e obras de caligrafia para sobreviver, mas continuou destinando parcela considerável da renda à compra de novas publicações. Recebeu títulos honoríficos depois que seu filho mais velho, Choe Byeong-dae, passou a servir o rei Gojong. Em 1875, chegou a ser nomeado para funções oficiais, mas renunciou alegando problemas de saúde.
Sua posição política tinha contradições. Embora defendesse a necessidade de abertura, em 1876 apoiou o filho na apresentação de uma petição contrária à influência estrangeira e o elogiou quando ele foi enviado ao exílio. Choe morreu em 21 de junho de 1879.
Em 1892, recebeu títulos póstumos em reconhecimento à sua trajetória intelectual. Durante a vida, suas teorias sobre o gi e suas propostas de abertura provocaram controvérsia em Joseon, enquanto alguns de seus livros circularam e foram publicados na China. O interesse acadêmico por sua obra cresceu após o fim da dinastia e ganhou força a partir da década de 1960. Desde 1979, a Comissão Nacional de Compilação da História Coreana passou a traduzir para o coreano moderno alguns de seus principais textos. Em 1999, Choe foi escolhido como personalidade cultural dos meses de março e abril, consolidando o reconhecimento tardio de um pensador que tentou conectar o saber prático, a observação e a transformação social.
Comentários
Postar um comentário