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De trabalhador de uma fábrica de papel a líder religioso
Segundo líder do Donghak, movimento religioso surgido na Coreia no século 19, Choi Si-hyeong nasceu em 21 de março de 1827, em Gyeongju, na província de Gyeongsang. Filho único, perdeu a mãe aos 5 anos e o pai aos 12. A partir dos 17, trabalhou na produção de papel para garantir o sustento. Mais tarde, tornou-se agricultor e exerceu durante seis anos uma função de representação comunitária em uma aldeia da região de Pohang.
Choi aderiu ao Donghak em junho de 1861. Passou a visitar regularmente Choi Je-u, seu parente distante e fundador da doutrina, para receber ensinamentos, que praticava por meio de meditação e disciplina pessoal. Em 1863, percorreu diferentes áreas da província de Gyeongsang como pregador. Em 14 de agosto daquele ano, recebeu a sucessão espiritual e tornou-se o segundo líder do movimento. Em 1875, trocou seu nome original, Choi Gyeong-sang, por Choi Si-hyeong.
A reconstrução do Donghak sob perseguição
Quando Choi Je-u foi preso, em dezembro de 1863, Choi Si-hyeong permaneceu escondido em Daegu para prestar assistência ao mestre encarcerado. Com o avanço das buscas das autoridades, refugiou-se na região das montanhas Taebaek e passou a cuidar tanto da própria família quanto dos parentes do fundador. Choi Je-u foi executado pelo governo da dinastia Joseon em 1864.
Após a morte do mestre, Choi Si-hyeong iniciou a reconstrução do Donghak. Instalado em Yonghwa-dong, na região de Yeongyang, promoveu períodos regulares de oração, organizou cerimônias em memória do fundador e reuniu seguidores dispersos. Também copiou e editou novamente os textos religiosos para que circulassem entre os fiéis.
O movimento voltou a sofrer forte repressão depois que Yi Pil-je liderou uma revolta em Yeonghae, em 1871, no aniversário da morte de Choi Je-u. Choi Si-hyeong se opôs ao levante, por defender uma pregação pacífica e sem intervenção política, e advertiu que a ação não teria êxito. Após a derrota dos rebeldes, precisou fugir outra vez.
Mesmo perseguido, estabeleceu novas bases em regiões como Yeongwol, Inje e Danyang. Criou um sistema de organização das comunidades religiosas em 1878 e, dois anos depois, abriu em Inje uma unidade para imprimir o Donggyeong Daejeon, uma das principais escrituras do Donghak. Em 1881, publicou o Yongdam Yusa em Danyang. A partir de 1884, implantou uma estrutura administrativa conhecida como sistema dos seis cargos, com núcleos espalhados pelo país para organizar os fiéis e estudar a doutrina. O crescimento do movimento levou à transferência de sua base para Boeun, em 1885.
Mobilizações pelo reconhecimento do fundador
Diante da continuidade das perseguições, Choi Si-hyeong e seus seguidores lançaram, em 1892, uma campanha para reabilitar a memória de Choi Je-u e interromper a repressão. Na primeira mobilização, fiéis de várias regiões reuniram-se em Samnye, na área de Jeonju, e apresentaram pedidos às autoridades de Chungcheong e Jeolla.
Sem resposta, cerca de 40 representantes foram a Gwanghwamun, em Seul, em fevereiro de 1893, para entregar uma petição diretamente ao rei Gojong. O grupo permaneceu diante do palácio por três dias e três noites, retirando-se depois que o monarca prometeu considerar o pedido caso a concentração fosse encerrada.
Como a repressão não cessou, uma terceira mobilização reuniu dezenas de milhares de fiéis em Boeun, em março. Os manifestantes exigiram a reabilitação do fundador, liberdade para difundir a religião e punição de funcionários corruptos, além de adotar palavras de ordem contra a influência japonesa e ocidental. Choi Si-hyeong proibiu atos violentos durante o protesto. A concentração foi dissolvida voluntariamente depois de uma negociação com o representante enviado pela corte e da destituição de autoridades acusadas de abusos.
O dilema diante da Revolução Camponesa Donghak
Quando Jeon Bong-jun atacou a sede administrativa de Gobu, em janeiro de 1894, dando início à Revolução Camponesa Donghak, Choi Si-hyeong se opôs inicialmente à luta armada. A facção do norte, liderada por ele, dava prioridade à reabilitação de Choi Je-u e à liberdade religiosa. Essa posição a afastava da facção do sul, comandada por Jeon, que seguia uma linha mais política e militar.
Pressionado pelos seguidores, Choi reuniu fiéis em Cheongsan, na província de Chungcheong. Integrantes da facção do norte chegaram a invadir uma repartição local e tomar armas, mas se dispersaram para evitar um confronto com as forças governamentais.
A posição mudou quando Jeon Bong-jun retomou a revolta, alegando o desembarque de tropas japonesas e o descumprimento de exigências pelo governo. Choi então ordenou uma mobilização geral. Os combatentes do norte juntaram-se aos do sul em Nonsan e enfrentaram forças coreanas e japonesas em Gongju, onde sofreram uma pesada derrota. Novos reveses ocorreram em Nonsan, Jangsu e outras regiões.
Depois da repressão ao movimento, no fim de 1894, Choi Si-hyeong continuou pregando enquanto vivia escondido. Em 1897, transferiu a liderança espiritual a Son Byong-hui. Preso em março de 1898, após ser denunciado em Wonju, foi levado a Seul e morreu na forca em 2 de junho daquele ano. Sua reputação foi oficialmente reabilitada em 1907, por determinação especial do rei Gojong. Son, o terceiro líder, posteriormente mudou o nome do Donghak para Cheondogyo.
O legado das Três Reverências
Ao publicar escrituras e criar estruturas administrativas, Choi Si-hyeong transformou o Donghak em uma comunidade religiosa organizada, apesar das sucessivas perseguições. Sua visão espiritual apresentava Deus como uma presença imanente, identificada não apenas com os seres humanos, mas também com todas as coisas.
Dessa concepção surgiu o princípio das Três Reverências: respeitar o céu, respeitar as pessoas e respeitar todas as coisas. Choi também ensinava que cultivar a presença divina dentro de cada pessoa equivalia a servir a Deus.
Sua trajetória foi marcada por uma tensão constante entre pacifismo e resistência. Órfão e trabalhador de uma fábrica de papel, ele se tornou o principal responsável pela sobrevivência institucional do Donghak. Priorizou a pregação pacífica e as petições legais, mas, diante da intervenção japonesa e do agravamento da crise de 1894, acabou conduzindo a facção do norte à luta ao lado dos rebeldes do sul.
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